‘Achei que fosse voltar’: após perder pai para Covid, cearense transforma dor em música – Diário do Nordeste

Na segunda onda de Covid-19 no Brasil, em fevereiro de 2021, um dos maiores amores da cantora e compositora cearense Rebeca Câmara partiu. O pai, Genésio Ximenes Cabral, fez passagem. Virou memória. Virou também canção, de nome tão sugestivo quanto carinhoso: “Papai”.
Já no mundo, a faixa será apresentada ao vivo no Theatro José de Alencar por meio do show “O Melhor de Mim” – homônimo ao novo álbum de Rebeca. O evento acontece nesta quinta-feira (12), às 20h, passeando por todo o cancioneiro da artista, entre recentes e antigas composições.

“Há músicas que estavam engavetadas e algumas que nasceram da pandemia pra cá”, sublinha a artista sobre o disco, em entrevista ao Verso. “Papai” integra o segundo time de criações. A canção é referenciada por Rebeca como aquela que “não gostaria de ter feito”. Mas ela existe, e carrega, em linhas e entrelinhas, a força da arte de sublimar dores.
Genésio, 71,passou 58 dias internado e do hospital não voltou. Primeiro professor de violão da filha. E um dos principais incentivadores. Certeza aplaudiria Rebeca no show desta semana. E quem disse que ele não estará? A música – com arranjos assinados por Câmara e pelo pianista Thiago Almeida – tratará de revivê-lo.

Legenda: A música “Papai” será apresentada ao vivo no Theatro José de Alencar por meio do show “O Melhor de Mim”
Foto: Arquivo pessoal

“Pensei que só fosse ali/ Achei que fosse voltar/ Te esperei por mais de um mês/ Aqui”, expressam os primeiros versos, sobre o sentimento de Câmara durante o tempo em que ele esteve internado. “Pedi a Papai do céu/ Pedi pra você voltar/ Quis tanto você de volta/ Aqui”. “É algo muito confessional, de esperança naquele momento de aguardo”, diz a cantora.
Boa expectativa porque seu Genésio era a própria fortaleza. Vírus nenhum parecia derrubá-lo. Não possuía comorbidade, não ficava desatento à saúde. Resistência. Agora ele vibra junto, mas de longe. É a própria arte. “Não consigo mais te ver/ Só posso imaginar/ Você perto/ De mim”.
Para Rebeca Câmara, cantar e compor são atos de cura. Excelentes paliativos. Ela, inclusive, conseguiu descarregar parte da própria emoção em “Papai”, embora não apenas. Todas as faixas de “O Melhor de Mim” caminham por entre ressignificações. 
Ao violão da artista e o piano de Thiago Almeida, se somam Miqueias dos Santos (contrabaixo) e Michael Rodriguez (bateria), dois dos mais destacados instrumentistas da cena cearense. Há também a gaita de Natanael Pereira, em participação especial na música “Quem tem amizade”. No total, o público é convidado a suavizar o peito por meio de belíssimas criações – caso de “Vai recomeçar” , “Que faça valer” e “Corpo fechado”.

Legenda: “Pensei que só fosse ali/ Achei que fosse voltar/ Te esperei por mais de um mês/ Aqui”, expressam os primeiros versos da música dedicada ao pai de Rebeca Câmara
Foto: Arquivo pessoal

“O mundo tá muito louco. A gente faz arte para superar os desafios, mas para outras coisas também. Pra ser sincera, os bons sentimentos sempre prevalecem na hora de eu compor. Escolho falar de coisas leves. E até se for tratar de um assunto mais pesado, a forma de eu transmitir sai com leveza. Apesar de tudo, tem muita coisa bonita pra se ver também”.
A música em homenagem ao pai pode não resgatar um momento de alegria. Mas, sobretudo por ser a última faixa do álbum, convoca ao arrebatamento. Transformar a dor em arte deve ser isso: uma reunião de milagres, algo que Rebeca quer transmitir no show e na vida. “‘O Melhor de Mim’ vem falando disso. Música pra mim é vida, é movimento. Está aí o tempo todo. Eu fecho os olhos e ela já está”.
Tem mais gente criando para abrandar a realidade. Do outro lado da moeda – embora ainda estendendo reflexões sobre o assunto – foi a ausência da vida como era antes que inspirou Mário Maia a imaginar. 
O artista e arquiteto cearense povoou o perfil no instagram de ilustrações sobre o cotidiano da pandemia de Covid-19. São imagens contemplando conversas na calçada, idas a estabelecimentos, contato físico entre pessoas. Saudades já superadas e ainda tão fortes.
“A necessidade de criar os desenhos surgiu da vontade de externalizar essa rotina da forma que consigo me expressar e conectar: desenhando”, explica Mário. Segundo ele, perceber as pessoas estreitando o contato por meio das ilustrações foi forte e consolador. Prova que a arte desconhece fronteiras e vai além.

“Acredito que ela chega como manifesto e refúgio. É essa válvula de escape, podendo espelhar aquilo que acredito, dando poder à minha voz. Ao mesmo tempo, acredito também em outras inspirações, pois me sinto motivado pelas pessoas ao meu redor, pela minha rede de apoio”, divide o cearense.
Estímulo compartilhado por outra conterrânea. Residente em Portugal, Luciana Araújo lançou o clipe da música “Diga”, do álbum “Saudade”, também durante a pandemia. A produção fala sobre o fim de relacionamentos neste tempo de distâncias físicas. “Infelizmente vi muitos casais próximos se separarem nesse período, a maioria por motivos não tão relevantes. Certamente, elas não teriam feito isso em outras circunstâncias, de acordo com os relatos dos próprios”.

Devido às limitações pandêmicas, o clipe foi filmado na própria residência de Luciana, com direção da também cearense Eve Mendes. A ideia foi expressar que, apesar do sofrimento e dos conflitos vivenciados por um casal, se existe amor dos dois lados, vale a pena cuidar dele.
Esse, para a cantora, é o verdadeiro poder da arte, principalmente em instantes de exceção: tocar os corações, levar à reflexão e transformar o dia de alguém. “Hoje em dia, há muita ‘arte’ só para vender, infelizmente. Quando o processo de criação começa objetivando lucro, a arte não nasce daí. Isso é outra coisa. A arte deve ser algo espontâneo, criação natural”.
Inquieta, Luciana driblou as limitações da pandemia outra vez ao idealizar o festival Ô de Casa. Ela conseguiu, dentro de casa, reunir mais de 40 artistas da música em um evento inteiramente virtual. Waldonys, Marcos Lessa, Lucinha Menezes, Paulo Façanha, entre outros grandes nomes nordestinos espalhados pelo mundo, participaram do movimento.
O único objetivo foi levar alegria e música para a casa das pessoas e divulgar os próprios talentos. “Quatro dias de um auê bom demais naquele período tão crítico”, partilha. “Se estamos fazendo arte para superar nossos desafios diários? Acredito que é nos desafios que temos mais capacidade criativa”.

Legenda: Inquieta, Luciana driblou as limitações da pandemia ao também idealizar o festival Ô de Casa
Foto: Divulgação

Ampliação das emoções e dos sentidos – capaz de multiplicar iniciativas. A “Serenata virtual” foi outra ação cultural proposta por Araújo.  Um presente em forma de canção, o qual as pessoas encomendavam trabalhos musicais para presentear pessoas queridas. Tudo aconteceu em prol de angariar recursos para músicos cearenses em situação de necessidade.
“Deu tão certo que no Dia das Mães de 2020 foram 20 serenatas em apenas um dia. Me emocionei várias vezes com a reação das pessoas ouvindo aquela música que foi escolhida por um amigo ou familiar querido. Amor em forma de canção. Acredito que isso tudo aconteceu devido ao isolamento mesmo. O brasileiro já nasceu com a criação dentro dele, é nato”.
Rebeca Câmara, Mário Maia, Luciana Araújo. Em face dos projetos de cada um, a centelha aberta para que inspirações nunca faltem. Transformem tudo em potência, novas formas de resistir.

Serviço
Show de lançamento do álbum “O Melhor de Mim”, de Rebeca Câmara
Nesta quinta-feira (12), às 20h, no Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525 – Centro). Ingressos: R$40 (inteira). Vendas: Casa Bendita e pelo site da Sympla.
Ilustrações de Mário Maia
Presente neste perfil, no instagram
Canções de Luciana Araújo
Acesso pelo site, canal do YouTubeinstagram e Spotify
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