Ana Bento (Que Jazz É Este?): "Jazz é liberdade" – Rimas e Batidas

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De 20 a 24 de Julho, o festival Que Jazz É Este? volta a invadir as ruas de Viseu. José James, Karyna Gomes, Smoke Hills, GARFO, Pedro Moreira, Manuel Linhares ou Spinifex são alguns dos nomes que actuarão por lá, existindo ainda, como já é habitual, espaço para outras actividades.
A celebrar o seu 10º aniversário, o evento mantém-se pertinente e relevante; fomos falar com Ana Bento, a sua directora, para perceber como se desenha uma programação que não perde a consistência de ano para ano.
Depois de dois anos em que a pandemia nos obrigou a agir de formas diferentes e a tomar decisões sobre assuntos com os quais nunca tínhamos sido confrontados, houve algum ensinamento importante que retiraram para esta fase agora mais folgada de tantas restrições e regras?
Sim! Eu sinto que as situações mais difíceis e com constrangimentos fazem-nos pensar o que realmente importa; o que tem que existir, o que é urgente manter ou ser feito. Pode parecer um bocado cliché mas muitas vezes não temos a verdadeira noção da importância de determinadas coisas porque parece que ou se tornaram banais para alguns de nós ou nunca as chegámos a experimentar e por isso nem sabemos o bem que nos fazem a nós e ao mundo. Quando nos vimos privados da liberdade que vivíamos, sentimos que tínhamos que fazer todos os possíveis e impossíveis para manter de pé o festival, para manter viva a cultura, a prática artística – quer pelos artistas e o pelo seu trabalho, quer pelo encontro com o público, o encontro das pessoas, a partilha. Sem encontro, sem partilha, não há cultura, não há vida verdadeiramente plena, completa, feliz. 
Smoke Hills e Karyna Gomes são dois projectos que se afastam mais de uma ideia tradicional que normalmente associamos ao jazz. A pergunta é, então, que jazz é esse que existe nesses projectos para fazerem parte desta programação?
Eu penso que o jazz é dos géneros musicais mais latos, mais permeável, mais inclusivo. Eu vejo o jazz acima de tudo como liberdade. Na Karyna Gomes talvez seja mais fácil reconhecer a ligação ao jazz – frequentemente reconhecida como cantora urbana e apelidada de “A Soul da Guiné-Bissau”, a sua música, embora seja também colorida de pop, vai beber muito às suas raízes claramente da música tradicional africana e gospel e contempla várias secções de improvisação com músicos incríveis que integram o projecto. Já a música de Smoke Hills, que se move no universo do hip hop, tem todo o espaço dentro deste género para incluir elementos mais assumidamente jazzísticos como acontecerá fruto do cruzamento com o trabalho do Combo Jazz da Gira Sol Azul, que ao longo deste ano lectivo trabalhou arranjos especialmente concebidos para este concerto pelo pianista Joaquim Rodrigues.
Esta é a 10ª edição do Que Jazz É Este. Quando começaram a programar este cartaz, quais foram os nomes ou as actividades em que pensaram “isto é algo especial que vamos dar às pessoas por causa da data”?
Há coisas que vamos pensando e desenvolvendo de forma permanente; ainda estamos numa edição e já surgem ideias para o futuro, seja a próxima ou outra edição mais distante. Não houve um período específico para programar este cartaz; foi-se desenhando a programação quer com alguns projectos que há muito tentávamos incluir e só agora isso foi possível (o caso dos Spinifex), quer com ideias que pensámos especificamente para a celebração deste número redondo de edições como a exposição Festival Que Jazz É Este? Pré-história e 10 anos de história através da qual queríamos não só afirmar o festival com os seus 10 anos, 10 edições, mas também reconhecer dinâmicas e projectos que existiram na cidade antes do festival existir e que de alguma forma foram inspiração e contribuíram para a dinâmica da cidade na área da música /do jazz ao longo de várias gerações de músicos.
Nestes 10 anos, imaginamos que tenham existido muitas situações em que se sentiu que o dever estava a ser cumprido, mas houve algum momento em se tenha sentido isso de uma maneira mais evidente?
Por acaso nunca sentimos isso. Eu pelo menos nunca senti, não sei se é da minha natureza. Por mais que se faça, sinto sempre que há ainda muito a fazer. No caso específico do festival, este não cumpre apenas uma função de promover a realização de concertos; há uma escolha que se faz com base numa oferta equilibrada entre projectos que circulam a nível nacional e reconhecemos a importância de passarem por aqui, mas também projectos, especialmente os internacionais, que não entram nos circuitos de outros festivais do género em Portugal. E, para além dos concertos, há uma missão de compromisso para com os jovens músicos e estudantes de música da região, de promover episódios que contribuam para a sua profissionalização (como aconteceu com a Gira Big Band que nasceu no seio do festival e entretanto ganhou autonomia, como o workshop de Jazz de Viseu, cujo número de edições é superior às edições do festival, como as parcerias com as escolas de ensino profissional de música da região centro, como outros projectos que já vamos matutando para edições futuras…).
E concertos favoritos? Ao fim de 10 anos, quais foram aqueles concertos que ficaram na memória?
Eu tenho a minha memória pessoal, a minha experiência específica e cada elemento do público ou da organização terá a sua própria memória. Eu recordo com muita emoção o concerto do colectivo Gira Sol Azul com o cantor britânico Omar, não só pelo privilégio de ter feito parte, mas pela sua música, a energia que a sua música carrega e que contagiou de uma forma muito especial quem assistiu ao concerto. Lembro ainda quando Soweto Kinch a meio do concerto cria uma música em dinâmica com inputs do público, simplesmente inacreditável, uma plateia repleta de pessoas de várias gerações… miúdos, adolescentes, adultos, pessoas de idade maior… todos em êxtase total a fazerem parte daquilo. E ainda os Triciclo Vivo que tocaram com o João Mortágua na 2ª edição do festival e foram surpreendentes; na altura eram pouco conhecidos, descobri-os a tocarem num fim de tarde à beira da Praia da Barra; na altura sentimos que estávamos a arriscar programá-los no contexto do festival e eles chegaram e rebentaram a escala, foi um concerto espantoso!
Já a pensar nos próximos anos: algum (ou alguns) nome que gostavam mesmo de trazer para actuar no Que Jazz É Este? E novas actividades que estejam já a projectar?
Embora eu lidere a equipa, esta é consideravelmente alargada mesmo no que toca à programação quer dos concertos, quer das várias actividades para além dos concertos. Há vários nomes internacionais que já há muito tentamos e continuaremos a tentar trazer, outros que a cada ano se juntam a essa lista e ficam também em jogo como possibilidades, mas não devo criar expectativas de coisas que não faço ideia se algum dia se concretizarão. Também no que toca a actividades, procuramos um equilíbrio entre a novidade e o aprofundar e desenvolver algumas iniciativas que pensamos fazer sentido manterem-se como pilares, como por exemplo o Jazz Ao Domicílio ou a Rádio Rossio, duas pérolas do festival, no meu entender.
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NBC
“Espelho”

Caroline Lethô
“Nordic Wood”

Scúru Fitchádu
“Sorrizu Margôs”

Micro
Pontos nos Is
SP Deville
Conjunto Corona
“Pontapé nas Costas” @ Musicbox

Mike El Nite
“Mambo nº1” feat. ProfJam @Musicbox

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