Após baixas por covid, Minczuk retoma grandes apresentações no Municipal – Cultura Estadão

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Paula Bonelli
11 de julho de 2022 | 00h30
Roberto Minczuk. Foto: Rafael Salvador.
À frente da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, o maestro Roberto Minczuk retoma grandes apresentações, ainda lidando com as perdas e os imprevistos causados pela covid-19. Na ópera Aida, de Verdi, com 250 artistas, foram 30 baixas de cantores no coro ao todo – mesmo com toda a equipe vacinada. O maestro convocou substitutos e conseguiu manter as sete apresentações ocorridas em maio e junho. “O problema não é só a covid. Às vezes, o cantor perde a voz porque ficou gripado e não consegue cantar. A voz humana é muito frágil”, disse em conversa com a repórter Paula Bonelli por videoconferência. A próxima programação da orquestra será nesta quinta-feira, dia 14, no Teatro Municipal. No repertório, o concerto “Grandes Estreias” ao lado do virtuose Yamandu Costa.
Descendente de poloneses bem como bielorrussos, filho de maestro, Minczuk começou a tocar na igreja protestante eslava em São Paulo. Aos 13 anos, já era o primeiro trompista da Orquestra do Teatro Municipal que rege hoje. Nessa época, seu irmão mais velho era oboísta de outro prestigiado grupo, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Aos 14 anos, ganhou uma bolsa para estudar na Juilliard School em Nova York – e passou a frequentar a Igreja Evangélica Ucraniana. Aos 15, a pedido do pastor, montou a sua primeira orquestra.
Há seis anos regendo a Sinfônica do Municipal, aponta que saber liderar é importante e “conseguir muito resultado em pouco tempo”. Hoje, mora no Jardins no mesmo prédio de João Carlos Martins, que acompanha o seu trabalho na música clássica desde a infância. Ele vive no 8º andar, Martins no 11º. Minczuk ouve o amigo estudando música e costuma brincar: “Você é um artista três níveis acima de mim”. A seguir, os melhores trechos da entrevista com o maestro que toma café desde cedo.
Sobre o mundo da música clássica sendo afetado pela guerra na Ucrânia, há exagero na pressão do ocidente contra os artistas próximos à Rússia?
Existem exageros e injustiças. A maior parte deles está tão revoltada quanto os ucranianos, e desaprovam essa guerra. Tem famílias divididas ali, em ambos os lado. Então, cancelar de uma forma generalizada… O que Dostoievski ou Tchaikovsky têm a ver com esse conflito? Absolutamente nada. Alguns poucos artistas se manifestam porque são a favor de Putin, dessa política nojenta de invasão, de extermínio.
O maestro é um só e os músicos são vários na orquestra. Como é essa relação?
Eu aprendi muito com meu pai que foi maestro. Ele percebeu de certa forma não só a importância da habilidade musical, mas também da capacidade de liderança. Como comanda a orquestra sem dizer uma palavra e consegue uma unidade? Então é um mistério, existe uma mística nisso tudo.
Os regentes temem não serem bem interpretados pelos músicos?
Se teme não ser bem interpretado, está no lugar errado. Tem de ser construtivo, mas é necessário conseguir muito resultado em pouco tempo. Envolve respeito mútuo, porém, a voz de comando tem que ser clara. E com educação, com tato, enfim. Mas se está corrigindo um mesmo músico pela quarta vez cometendo o mesmo erro não vai falar bonitinho, baixinho, fala assim: “Resolva isso porque é inaceitável se continuar desse jeito”.
Qual é a expectativa para o concerto “Grandes Estreias”, com Yamandu?
Vai ser fabuloso. Eu tenho um relacionamento artístico e de amizade com o Yamandu há 20 anos. A orquestra completa vai tocar a peça “Quadros de uma Exposição”, que Mussorgsky, com orquestração do Ravel, escreveu baseado em quadros de um grande pintor que era amigo dele, o Viktor Hartmann. A peça “Vernissage”, inspirada em esculturas de alguns artistas canadenses, também será apresentada. Elas se complementam.
Como os músicos voltaram da pandemia?
Em 2020, estávamos nos ensaios finais da ópera Aida quando veio a notícia para parar imediatamente, por um decreto da cidade e do Estado de São Paulo de isolamento. Foi um banho de água fria. Os solistas internacionais estavam ensaiando aqui, os coros tinham decorado quase quatro horas de ópera em italiano. Dias depois, a maestrina de um dos nossos coros, a Naomi Munakata, teve que ser internada às pressas diagnosticada com covid. E, para o nosso choque, 10 dias depois ela faleceu. Além da Naomi, os esposos de duas cantoras do nosso coro também faleceram.
Conte sobre fazer Aida com desfalque de cantores em junho deste ano.
Ao todo, durante essa produção da Aida, que durou dois meses, tive que substituir 30 cantores no coro. À medida que ia surgindo, eles dizendo que testaram positivo para covid, chamávamos os que estavam de folga. A sorte é que tínhamos 120 cantores. O problema não é só a covid. Às vezes, o cantor perde a voz porque ficou gripado e não consegue cantar. A voz humana é muito frágil.
 
 
 
 
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