Caetano 80 anos: artista é exaltado por personalidades brasileiras há anos – O Tempo

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80 anos de uma vida singular que plural nenhum é capaz de exprimir. 80 anos celebrados no dia 7 de agosto, ano de eleição presidencial com desfecho previsível e melancólico. Caetano Veloso é maior que isso. Desde os tempos em que – garoto magricela, tímido dentro de um paletó xadrezinho – surgiu para o Brasil no programa “Esta Noite se Improvisa”, na TV Record dos anos 1960.
A voz da irmã Maria Bethânia ecoava “Carcará” na esquina da Ipiranga com a São João e em outras esquinas do país, mas Caetano era ainda discreto coadjuvante de um certo grupo baiano que tomaria de assalto a música popular brasileira, dividindo-a em antes e depois dele, isso mesmo, AC e DC.
Menino elétrico, vivo, observador, atento a tudo, capaz de expressar opinião sobre qualquer coisa. Lá vem o irmão da Bethânia, diziam quando ele movimentava sua silhueta esguia pela Galeria Metrópole de São Paulo ou quando pedia abrigo na casa do crítico de comidas Paulo Cotrim, criador do histórico Juão Sebastião Bar, uma ilha de liberdade no desatino da ditadura militar, ainda jovem, mas já bem instalada no país. Caetano pagou caro por ter despontado naqueles anos sombrios.
Em setembro de 1968 ele gritava no palco do Tuca, em São Paulo: “Gilberto Gil está aqui comigo pra nós acabarmos com esse festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil, pra acabar com isso tudo de uma vez”. Não dá nem para invocar o “perdoai-os, eles eram jovens e não sabiam o que faziam”. Porque eles já não eram tão jovens, ambos tinham 25 anos. E Caetano açoitava a plateia juvenil que usava a vaia como mordaça, proibindo-o de cantar “É Proibido Proibir”.
Caetano é um cometa em eterno trânsito pelo firmamento, da mesma estirpe do Badauê, o afoxé que, depois de uma passagem meteórica pelo Carnaval da Bahia, nos anos 1970, cravou, na raça, as tradições afro-descendentes no coração do Brasil. Beleza pura!
Caetano é uma dessas guinadas na aventura humana, quando uma mente iluminada resolve partir pra outra e muda tudo. Um homem que aprendeu com os pais a sempre pedir licença, mas nunca deixar de entrar. 
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Acompanhar sua trajetória deixa certezas. Sua obra alcançou com o tempo uma força orgânica e um poder de sedução como o vermelho da fruta ao chamar o passarinho para comê-la. Sua poesia e sua música adquiriram a sabedoria dos rins ao eliminar as coisas que não servem ao corpo. Bendito fruto, a melhor tradução da Semana de Arte Moderna de 1922, cujos pilares, no ano em que completa um século, encontram-se sob o ataque feroz de um governo de extrema-direita com sua corrosão dos valores intelectuais e dos símbolos artísticos, através de uma política de desmantelamento das instituições culturais.
Tudo foi dito e escrito sobre Caetano antes de mergulharmos no manicômio virtual e suas redes sociais. Mas parece que ficou tudo por dizer a respeito desse artista que a todo instante nos rouba a noção de tamanho natural das coisas.
Leia a seguir depoimentos de bambas da cultura brasileira, que colhemos ao longo das últimas décadas, e talvez você chegue a uma outra certeza: é muito bom viver no mesmo planeta com Caetano Veloso.
Caetano Veloso
Amargo santo da purificação: só posso falar com você sobre o que você não entende numa forma que você não entenda.
Nos setenta milímetros do infinito, nos dois mil e um anos de viagem, na longa metragem, no Urubuquaquá, no Pinhém, anywhere, no século passado, eu no presente, eu no singular, desgarrado da nave, caindo? Para fora da tela, desprojetado?
A minha fantasia, meu pesadelo, desprotegido, eu não. Amor morto motor da saudade: no dia em que eu fui embora não teve nada demais. Não tenho medo, não: nada é pior do que tudo. Soy loco por ti America (while my eyes go looking for flying saucers in the sky). É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte. Vocês não estão entendendo nada! Nada! Nada! Nada! Tomar uma aguinha de coco, sofrendo uma brisa mansa de Itapoã. Um daqueles passarinhos viria posar no braço da vitrola, mas isso não incomodaria Joãozinho, que continuaria construindo seu labirinto que vai da beira do rio para a mesma beira do rio.
O calidoscópio giragiragira e nos projeta mil anos no tempo, atrás ou adiante, numa época muito diferente da atual.
Gilberto Gil
Com Caetano tem sido, desde que nos encontramos, como se nossas vidas transitassem no espaço de um destino. Um espaço curvo. Onde as aproximações e os afastamentos se dessem sempre sem a perspectiva da separação, mas, antes, com a garantia elástica da unidade de um despropósito. Porque os interesses que nos reuniram tem estado sempre projetados para além de um utilitarismo subjacente, para além dos perigosos desvios do preciosismo (no caso dele)  e da vulgaridade (no meu). Com Caetano tem sido se não pudesse haver solução. Para nada. Nem para Deus, que sempre “esteve solto”, nem para o homem, que sempre esteve preso aos vazios deixados  por Deus, em seu perene vagar.
Com Caetano tem sido sempre a reiteração do ato ritual da música, compreendido esse ato, em suas formas mais devocionais (como no mestre João Gilberto), ou nas mais guerreiras (como no rock in roll). Sempre pelo Zen de todos e a felicidade geral do planeta. Com Caetano tem sido sempre pelo que a vida nos oferece de real: o viver. Como na viagem de avião ou na obrigação do candomblé. Pelo gesto civilizado e pelo pensamento selvagem. Com Caetano tem sido sempre amor e amizade.
Dona Canô Veloso (1907-2012)
Caetano foi sempre diferente dos meus outros filhos, mais calmo, sempre mais calado. Brincava muito, mas nunca foi moleque, nunca gostou de futebol. A casa tinha um quintal enorme e um sótão imenso, e os amigos todos vinham pra cá. Gostavam de inventar brincadeiras, fazer estinhas, tocar piano. Caetano inventava música, tudo que cantava ele aprendia, e tudo que tocava no rádio também. Chegava no piano e tirava. Escrevia peças de cinema e teatro pras brincadeiras. Com 4 anos começou a desenhar com carvão no chão.
A gente chamava ele de “Caju”, que era um maluco que tinha aqui que vivia desenhando. Até que o Zeca, pai dele, comprou tela e pincel e ele fez muitos quadros. Quando mudamos pra Salvador, Caetano não quis mais pintar. Eu pensava que ele ia fazer belas arte, mas ele achava que isso não era coisa pra de trabalhar. Mas desde pequeno ele gostava muito de cantar nas festas do ginásio, cantava músicas que ninguém imaginava que ele cantasse, como ‘Cuore ingrato’ e uma versão de ‘Torna sorriento’. O pessoal se admirava de ver como ele segurava os agudos. E adorava dançar também. Dançava muito xaxado, cha-cha-cha e samba. Tudo como até hoje, sem ostentação.
Caetano nunca deu trabalho, a não ser para comer e dormir. Pouco comia e nada dormia, como é até hoje. Acho até que agora já come melhor, mesmo sendo uma só vez por dia. Gosta mesmo é de café com leite e pão. Pra acordar cedo e ir pra escola é que era um problema. Quando subia pra dormir, ia com a Nina, tida dele. Ela cochilava na cadeira e ele chamava pra bater uma prosinha, pra jogar carta. Até hoje é assim, diz que tem medo da noite. No resto não mudou nada. Zeca sempre dizia: “Eu me sinto feliz porque Caetano nunca esqueceu a terra em que nasceu”.
Toda música que ele fazia, por exemplo, trazia pra mostrar pra gente. Agora é que não dá mais tempo, mas sempre quer saber a opinião que temos. E é disso que eu me orgulho, dele ser como é, não de ser, como dizem, gênio, famoso. O que eu mais gosto no Caetano é isso que ele inova. Você vê, ‘Alegria, alegria’ mudou completamente aquela coisa de fazer tudo com métrica, com rima. Era nova quando foi feita e é nova até hoje. Não sei onde ele vai buscar as palavras, as imagens tão exatas como “Eu vi a mulher preparando outa pessoa”, de ‘Força Estranha’.
Caetano é um ótimo filho, me leva pra viajar, fez questão que eu veja todos os shows na primeira fila. O que mais me abalou na vida foi aquele sofrimento que ele passou sem merecer. Não gosto de lembrar, nem ele, mas não sai da cabeça nem do coração. É difícil acreditar que uma pessoa que uma pessoa pudesse ser injustiçada como ele foi, ser preso, expatriado, e até hoje não sei por quê. Não posso me conformar. Me abalou tanto que a minha cabeça ficou branca. Mas nem isso mudou Caetano. Tudo que ele faz é sempre um impacto. Depois a gente a gente vai prestando atenção e entende a profundidade do que ele quer dizer e tudo que ele faz emociona, porque ele inventa, busca coisas que a gente nunca na vida pensou e que são realmente certíssimas. Como só ele sabe fazer.
Augusto de Campos
O que ele fez, faz, está fazendo para ou pela ou com a música popular não há mais quem ignore. Ele explodiu a canção, levando-a a caminhos jamais palmilhados entre nós. Revolução da Bossa-Nova (um movimento “jóia”), Tropicália (um movimento “qualquer-coisa”). Proibido proibir: sons em liberdade.
Navegar é preciso: o desconhecido. Tudo comer: antropofagia. Metapoesia e metamúsica: nos discos e shows, a melhor crítica-em-ação da música popular feita e por fazer.
Mas é impossível pensar Caetano como “músico popular”, por mais que a isso deva induzir uma História da Música Popular Brasileira.
A imprópria ou insuficiente chamada “música popular” – que não é só música e nem é tão popular quanto as conotações do adjetivo fazem supor – é quase sempre uma poesia musicada. Queiram ou não, uma modalidade de poesia. Poesia-música. Ou música-poesia. Paradoxalmente, o texto poético, aqui, ganha o nome de “letra”.
Em outros tempos, esse gênero de poesia teve seus praticantes na área tradicionalmente batizada de “erudita”. A poesia dos trovadores provençais dos séculos 12-13, toda ela feita para ser cantada e, muitas vezes, executadas pelos próprios autores. As canções inglesas da época elizabetana, onde há notáveis poetas-músicos, como Thomas Campion, e músicos-poetas, como o alaudista John Dowland. Dentro do âmbito popular, é um gênero que tem larga tradição e se manifesta mais instintiva e intuitivamente, sem a cerrada elaboração dos artefatos eruditos.
Nos últimos anos, porém, essa poesia-música, antes confinada ao seu compartimento convencional, armou-se de recursos muito mais sofisticados, cruzou as linhas e invadiu as áreas cultas. Um fato novo, como ocorrência generalizada.
Depois da grande fase da poesia para ser vista, enfaticamente vista – a dos anos 50 e 60 -, houve um giro, uma mudança de veículo, privilegiando a audição. A poesia para ser ouvida, dos fins dos anos 60. Feita por poetas para serem vistos. Quase todos, pré, para ou ex-universitários. O fato é que, a partir desse momento, toda uma geração de poetas das camadas cultas urbanas partiu, decididamente, para o som.
Em tal contexto, a atuação de Caetano foi tremendamente significativa. Situando-se desde logo no grupo dos inventores, isto é, dos artistas vocacionados para a descoberta de territórios inexplorados, Caetano não se limitou a impelir a música popular, até então contida numa dinâmica cultural acanhada, a participar ativamente da renovação da linguagem artística. Baiano e estrangeiro, ele foi o nosso grande sincretista. Um novo antropófago, bárbaro e doce, capaz de ligar, em sua música aberta, em sua poesia qualquer-coisa, as pontas das mais diversas poéticas potencialmente vivas, de Gregório a Pastinha, de Gil a Sousândrade, do rock a Smetak, do concreto ao Xingu.
Puxada por Caetano, a poesia-música rompeu as barreiras entre o popular e o erudito. E se expôs, radicalmente, com todos os riscos, às largas e despreparadas platéias do consumo, levando a um extremo limite a tensão comunicativa entre a informação nova e o repertório coletivo de redundâncias. Vivas e vaias.
Mas é enganoso pensar que os seus produtos sejam meros intermediários entre a poesia culta e o público. Os críticos que assim pretendem minimizar a sua importância aplicam-lhe padrões exclusivamente literários, de forma simplista e linear. Não percebem que se trata de uma arte com parâmetros próprios – ainda que porosa às uma arte com parâmetros próprios – ainda que porosa às demais -, de uma poesia-ação, que não se faz só com palavras, mas com sons, voz, corpo. Poesia mais próxima da conversa que do verso.
Não. Se quiserem compreender esse período extremamente criativo de nossa vida artística, os compêndios literários terão que se entender com o mundo discográfico. Nesse novo capítulo da poesia brasileira que se abriu a partir de 1967, tudo ou quase tudo existe para acabar em disco.
“Nem todos sabem cantar. Não é dado a todos ser maçã para cair aos pés dos outros”, cantou o bardo Iessiênin. Nos discos de Caetano, o poeta-cantor, até o vento canta-se, compacto no tempo. Quem vai dizer onde termina a música e começa a poesia?
Tárik de Souza
Até explodir colorido no sol dos cinco sentidos do tropicalismo nos confins de 67, Caetano Veloso passou pelos vestibulares de massa mais inusitados. Um deles ao menos era um concurso literal de suas habilidades de connaisseur da MPB; algo que o punha à prova num tempo em que ainda imperava a tradição, como candidato a uma das cadeiras dos bambas da academia, o programa de TV ‘Esta Noite se Improvisa’. No melhor estilo dos talk shows americanos, conduzido pelo mesmo Blota Jr. dos festivais da Record que monopolizava na época o melhor elenco da música nacional, ‘Esta Noite se Improvisa’ ao contrário do que sugere o título não era um certame de repentistas. Cada astro convidado (e compareciam sempre as maiores estrelas) apertava um botão e confrontava-se com uma palavra para a qual deveria evocar uma música conhecida.
Caetano era campeão da matéria em rapidez e memória. Uma antecipação do fôlego que demonstraria ao longo do percurso de mais de vinte anos de liderança na MPB, confirmando o aforismo atribuído ao teórico Décio Pignatari, “o produssumo queima bagagem”. Desde o começo não faltava a Caetano o devido estoque de combustível.
Mas o foguete partiu lento, num remansoso ‘Domingo’, LP de estreia que modestamente quis dividir com uma cantora nova, uma certa Gal Costa, já que não se considerava dono de voz suficiente para um disco solo.
Ao contrário dos versos perplexos de Drummond – só tenho duas mãos e o sentimento do mundo – o despretensioso e joãogilbertiano ‘Coração Vagabundo’ deste autor debutante, “não se cansa de ter a esperança de um dia ser tudo que quer”. E não queria pouco: “Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim”. Lançado com algum atraso no começo de 1967 o disco dava uma geral no jeito de corpo anterior do autor, de feição regionalista (Um dia, Quem me dera, Onde eu nasci passa um rio) e prometia “incorporar essa saudade num projeto de futuro”.
Ele apareceria no mesmo ano, no III Festival da Música Brasileira, na marchinha ‘Alegria, Alegria’, escudada nas guitarras importadas dos argentinos Beat Boys, “sem lenço, sem documento, nada no bolso e nas mãos”. A aliança (com a participação do ‘Domingo no Parque’, de Gilberto Gil, assessorado pelos Mutantes) da linha evolutiva da MPB com as guitarras dos Beatles e a singeleza da Jovem Guarda daria em curto-circuito. Até passeatas contra as guitarras e as primeiras vaias da ala que o concretista Augusto de Campos apelidou de TFM (Tradicional Família Musical).
Nascia o tropicalismo apoiado nas bases teóricas da poesia concreta, nas plásticas artes de Hélio Oiticica (o inventor do conceito da Tropicália) e no teatro de Zé Celso Martinez Correa retomando o pai da antropofagia, o Oswald de Andrade de O Rei da Vela. Lançando o conceito de cultura de massa com utilização total das possibilidades da mídia – do casamento hippie com Dedé na Bahia a exaltadas aparições no Chacrinha – Caetano, já instalado em Sampa, abre com o tropicalismo a possibilidade de entrar e sair de todas as estruturas. “Interessou-me quebrar o cerco do bom gosto vigente”, ele proclamou enquanto acendia uma vela a Mick Jagger e outra a Vicente Celestino.
O ritual ano 68 da revolução cultural francesa também seria o de mais intensa e acesa atuação do efêmero movimento. O filme ‘Terra em Transe’, de Glauber Rocha, a peça ‘Roda Viva’, de Chico Buarque em montagem tropicalista de Zé Celso, e um LP em que Caetano aparece num medalhão na capa cercado de cobras, dragões, uma ninfa e uma penca de bananas daria o toque definitivo: “Eu inauguro o movimento/eu oriento o carnaval/eu inauguro o monumento no planalto central do país”.
Metido em roupas plásticas, cabelos eriçados e postura agressiva, provocadora com rolés pelo chão do palco, Caetano, Gal e Gil levaram muitos furos a frente a vanguarda da MPB malemolente. “Eu, você João já temos um passado, meu amor, um violão guardado e aquela dor como dois quadradões”, bradava um novo anti-hino de Caetano. “A voz do morto (viva o Paulinho da Vila)” metaforizava a tradição musical esfaqueada. O manifesto ‘É Proibido Proibir’, recebido com um mural de vaias e a desclassificação na seção paulista do Festival Internacional da Canção (ao lado de ‘Questão de Ordem’, por Gil), consolidava a posição combatente da selvagem reedição da semana modernista de 22.
Debaixo de intensa fuzilaria crítica, acirrada pelo lançamento do LP coletivo ‘Tropicália’, e intensa estimulação da mídia promovida pelo Brian Epstein do grupo, o empresário Guilherme Araújo, o tropicalismo colocava mais lenha no fogo com ‘Divino Maravilhoso’ (uma expressão atribuída ao empresário) no festival da Record. “Não sei mais o que devo cantar, para onde está indo a música brasileira”, queixava-se pelos cantos a cantora Elis Regina, porta estandarte da MPB descendente da bossa-nova com seu programa ‘O Fino’.
A ideia de performance (dizia-se happening) estava no ar com o tropicalismo. Do estranho hippie louro americano de breves loucuras no palco do ‘Alegria, Alegria’ ao próprio discurso mítico de Caetano exorcizando a vaia do ‘É Proibido Proibir’. “Mas será que é essa a juventude que quer tomar o poder? Vocês no fundo são iguais àqueles que invadiram ‘Roda Viva’ e espancaram os atores. Se vocês forem em política o que são em estética, estamos feitos”. Profético Caetano, com sua lanterna de Diógenes à mão.
‘Divino Maravilhoso’, uma das raras parcerias da dupla Caetano & Gil, defendida por Gal não passa de um terceiro lugar no festival, mas consolida o conceito e acaba transformado em título do programa de TV dos baianos (mais Mutantes e Jorge Ben) na TV Tupi, depois que o mensal ‘Banana Especial’, tratado com a Rhodia que os patrocinava no itinerante ‘Momento 68’, não dá certo. O programa estreia em meio ao barulho provocado pelo show dos tropicalistas na falecida boate Sucata no Rio com altas performances, muitos decibéis e um cartaz de Hélio Oiticica que daria confusão. “Seja marginal, seja herói”, dizia o texto acusado de incitação à guerrilha pela censura que o proibiria. O programa de TV, com a mesma virulência do show, não tardaria em receber uma batelada de protestos do provinciano interior paulista, público alvo da já decadente Tupi. O AI-5 fecha o ano antes do fim, levando Caetano e Gil à cadeia.
Em maio de 69, depois de solto, Caetano circula confinado em Salvador com os cabelos tosados e uma frase-senha nos lábios: “Tenho 26 anos, me chamo Caetano Veloso e moro em Salvador. Só posso dizer isso”. Alguns meses mais de silêncio e Gil manda o emblemático ‘Aquele Abraço’ (“Pra você que me esqueceu”) e Caetano, num Lp de capa branca como o ‘White Album’ dos Beatles, prepara a saideira do exílio: “Eu quero ir minha gente/eu não sou daqui/eu não tenho nada”.
No teatro Castro Alves, em julho, fazem o espetáculo ao vivo da despedida que só sairia em disco em 71. Sem a ‘Carolina’ irônica do álbum branco, mas com a chama de ‘Atrás do Trio Elétrico’, plataforma de lançamento da trieletrização nacional. “Viva a rapaziada”. “Tanto faz no Sul como no Norte”, dizem as tiras internas do LP ‘Barra 69’, editado no selo Pirata, dando a medida daqueles tempos sombrios. Vira o disco voador e Caetano de ‘London, London’, no exílio, manda o recado inaugural dos pálidos 70: “I’m wandering round and round no-where to go / I’m lonely in London London is lovely so / I know no one here to say hello”.
Mauricio Kubrusly
“Gilberto Gil está aqui comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil, pra acabar com isso tudo de uma vez!”
Não dá nem para invocar o “perdoai-os, eles eram jovens e não sabiam o que faziam.” Porque eles já não eram tão jovens assim, naquela noite bem no meio de setembro de 68, no Tuca, em São Paulo – os dois tinham 25 anos. E Caetano Veloso açoitava a plateia juvenil que usava a vaia como mordaça, proibindo que ele cantasse ‘É Proibido Proibir’. “Nós, eu e ele, tivemos a coragem de entrar em todas as estruturas e sair delas!”
Assim, eles eram jovens o suficiente para acreditar que a dupla Caetano & Gil era mais forte do que tudo, capaz de podar até mesmo toda a imbecilidade que reina (o verbo fica no presente mesmo) no Brasil. As suas canções operavam uma critica high-tech do país – se o roquezinho de protesto de hoje aprendesse com aqueles dois cavaleiros do após-calipso… Mas um beijo pode muito mais do que uma canção. E no comecinho de 87 o beijo aconteceu. Na boca. Na frente de centenas de câmaras de TV, fotógrafos e até de pessoas. Caetano, como motorista, foi buscar o novo secretário da Cultura de Salvador no hotel. E levou Gilberto Passos Gil Moreira para a praça – porque essa posse tinha de ser na praça, de tanta gente sem paletó nem colarinho branco que queria assistir. E Caetano leu o termo de posse. Depois, beijou Gilberto Gil na boca. Pelo Brasil afora e adentro, o beijo se multiplicou em milhões de telinhas, corroendo o status quo muito mais do que uma penca de canções de protesto. E depois do beijo, Gilberto disse: “O mestre poeta ensina: dominar o domínio. Esta a finalidade excelsa da cultura. O mestre, não preciso dizer, é Caetano”.
Lá estavam os dois de novo, dragões da santidade contra a maldade guerreira – onde já se viu, longe do Leste europeu, um homem beijar outro na boca numa solenidade oficial? Mas aqueles dois ali tinham uma tradição beijoqueira subversiva. Doze anos antes, na canção ‘Pai e Mãe’, Gil já mandava um recado para o pai, através da mãe: “Diga a ele que não se aborreça comigo quando me vir beijar outro homem qualquer”. Escândalo no covil da família tradicional.
Três anos depois, o mesmo Gil foi generosamente explícito em sua ‘Super-homem – a Canção’: “Minha porção mulher, que até então se resguardava, é a porção melhor que trago em mim agora”. Pronto: a granada explodia numa das pilastras do bunker da tradição e o jeito foi transformar “porção mulher” em recheio de piada. Mas, em 82, Caetano colocou “Ele me deu um beijo na boca” direto no título de uma canção. E no final do ano passado, perguntava para o espelho-plateia, todo requebros: “Eu sou neguinha?”
O susto foi menorzinho do que na época em que Caetano usou batom ou brinco. A imbecilidade do Brasil, pelo menos uma titiquinha dela, estava mais quieta – ou mais bem camuflada. E assim vem sendo, em mais de 20 anos de parceria desses dois baianos cem por cento: o grande rebuliço que promovem é muito mais na catedral barroca do comportamento do que no circo da música. Porque na galáxia da canção, planetas gêmeos mesmo são Roberto e Erasmo ou Toquinho e Vinícius, Ivan Lins e Vitor Martins ou (perdão pelo despudor) Michael Sulivan e Paulo Massadas. Esses aí, sim, se casaram direitinho e têm ou tiveram muitos filhotes para tocar no rádio.
Caetano e Gil – apesar até mesmo do caso amoroso que juraram existir entre eles, com direito a trancar a porta do quarto -, esses dois não chegaram a colocar suas assinaturas juntas em 20 canções, depois de mais de duas décadas na mesma rota. No primeiro LP de Gil, de 67, lá estava o parceirinho novo, na faixa ‘Beira Mar’. Depois, na estreia individual de Caetano, mesma coisa, no diamante ‘No Dia que eu Vim me Embora’. Mas a gema da parceria musical Gil & Cae ficou no LP ‘Panis et Circences’, a começar pela faixa que virou título – uma trouxinha só com canções de babar: ‘Batmacumba’ e a cintilante ‘Lindonéia’.
Nesse ano ainda teve ‘Divino Maravilhoso’. Tudo o que viesse depois seria exagero. Eles tiveram a sabedoria de Rossini: depois de ganhar sucesso e dinheiro com algumas óperas perfeitas, parou de compor e foi se divertir em Paris. No fim, Rossini voltou a compor, mas teve o cuidado de chamar os filhotes fora de época de “Pecadinhos da Velhice”. O lance de Gil e Caetano não foi exatamente de muita grana e muita fama, mas o que fizeram depois, de ‘São João Xangô Menino’ a ‘As Yabás’, foi mesmo “Pecadinhos de Velhice”. Afinal, lá no épico 68 também já tinham cunhado a faixa padrão para se criticar a maioria silenciosa que tem medo de homem que beija homem: Eles.
Canções, afinal, qualquer bandinha de rock ou Benito de Paula, Fábio Jr. ou Joana faz, grava e toca no rádio e se dubla no biônico programa do Chacrinha. Mas beijo incomoda. Canção não atrapalha almoço de domingo na casa do titio, basta desligar o rádio ou mudar de canal. Mas beijo, isso cutuca mais embaixo e por dentro. Não dá para substituir pelo ‘Show da Xuxa’. E se, no meio da santa ceia da família, a sobrinha mais querida entra na sala com o LP ‘Jóia’?… Isso, em 1975, quando ainda não tinha bundinha de homem todos os dias na abertura da novela, quando ainda não despencava mulher pelada em cada anúncio de calça jeans ou de vodca. E a família Veloso – pai Caetano, mamãe Dedé e filhinho moreno – estava lá, todos peladinhos e muito satisfeitos. Aí, xô satanás!, não tem chutação de lata do Roberto Carlos que apazigue.
E desde o final dos anos 60 esses dois peraltas fazem isso, nas capas de seus discos. Só a geografia dos cabelos de Gil e Caetano nesses vinte anos de capa já pôs muito alfinete afiado no trono antes confortável de tanto pater família por aí. E logo no seu segundo LP, Gilberto ridicularizava a Academia Brasileira de Letras, ah!… os imortais. Ou a sagrada beca da formatura, no LP ‘Tropicália’. E para derrubar de vez as prateleiras e as estátuas, louças-livros, Caetano deitou a cabeça do colo da mãe numa capa (‘Muito’) e na outra beijou o pai (‘Cores e Nomes’). Quer dizer: como pode um moço assim, tão apegado à família, ter posado nuzão da silva, ainda obrigando a esposa e o inocente menino a fazerem o mesmo? E Gilberto Gil senta no chão e come de pauzinho, em 75, um cacho de anos antes da sushi-wave que se esparramou por aqui. Antes de ‘Saturday Night Fever’, Caetano já armava o toque: “Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara, minha cuca ficar odara”.
Quer dizer: o comportamento sempre foi mais alarmante do que a música, o beijo antes da canção. Pelo menos as luzes de Caetano e Gil mergulham no mesmo prisma – o que surge na outra face não é o brilho monocromático de uma dupla de parceiros (”Você faz a letra e eu componho a melodia”), mas o arco íris de muitas cores, mutantes, provocadoras. Exatamente por isso, não seria difícil antecipar um rompimento – ainda mais quando uma das faces é Caetano Veloso, que teve a sincera objetividade de colocar o próprio e concreto umbigo diante do espelho na capa de um disco (‘Araçá Azul’)… isso, é claro, fora as outras seis fotos que caetanam pelo espaço da mesma capa.
Mas nem esse egão conseguiu armar um trilho de colisão para esses dois mestres tão próximos e tão distintos. Nesse mesmo ‘Araçá Azul’, Caetano saúda o amigo na faixa ‘Gilberto Misterioso’: “Gil engendra em Gil rouxinol”. Mas esta é apenas uma reverência que virou canção. A parte maior, na rolança desses vinte anos, ficou nas entrevistas, nas declarações de amor que um sempre tem prontinha para fazer para o outro, com uma fidelidade que saiu de uso, uma grandeza que resiste às intriguinhas e botes mais bobocas da imprensa de rotina.
Não, Caetano e Gil não são assim tão vulneráveis. A dinâmica dessa dupla é vacinada contra o vacilo. Por isso, esses garotos ainda podem mesmo sonhar com a batalha final contra toda a imbecilidade que reina no Brasil – um Dom Quixote com final feliz.
Sérgio Augusto de Andrade
Talvez já faça algum tempo que Caetano desistiu de esperar, da maioria das pessoas, alguma pergunta inteligente. Certamente por estar cansado de repetir respostas brilhantes para perguntas previsíveis, Caetano Veloso desistiu também de falar. Nada mais justo – é uma sorte que ainda não tenha desistido de ouvir.
O único problema é que, estimulados justamente por esse discreto, decidido silêncio, todos começaram a esperar qualquer declaração de Caetano Veloso com uma voracidade que oscila do simples interesse à mais incontrolada ansiedade. Foi pensando em estabelecer uma lista de suas preferências pessoais, sem desrespeitar o seu silêncio, que Marco Lacerda, editor de ‘Vogue’, me telefonou. É também um projeto curioso: implica em transformar o seu silêncio, de atitude, quase numa hipótese de jogo. É também um projeto muito ingrato: ser surpreendente, para Caetano Veloso, é rotina – adivinhar seus gestos, suas afeições, suas respostas ou suas rimas, desse modo, é sempre impossível.
Eu gosto muito de Caetano Veloso. Ao contrário da maioria dos compositores deste país, Caetano Veloso sabe escrever, sabe falar e sabe cantar – três qualidades razoavelmente importantes para a maioria dos músicos que pretendam alcançar – ou manter – alguma projeção.
Além disso Caetano Veloso parece ser o único autor brasileiro capaz de reduzir qualquer moda a um fenômeno irrecuperavelmente demodé. Pensar o que Caetano Veloso basicamente admira ou detesta, por isso, é sempre temerário: antes de tudo, por exemplo, seria preciso supor que ele estivesse disposto a responder a uma lista qualquer de sugestões ou temas – tão arbitrária, redundante e infantil como todas as listas.
Em seguida, uma vez que se aceite essa possibilidade, não se trataria mais de adivinhar suas respostas – o que seria pretensioso, gratuito e sem sentido -, mas de algo ao mesmo tempo mais simples e mais arriscado: imaginar suas preferências.
Os melhores métodos para isso talvez sejam os mesmos de um romancista – ou de um visionário. No seu caso, entretanto, há uma desvantagem evidente: qualquer romancista que imaginasse um personagem tão espirituoso, inteligente e rápido quanto Caetano Veloso logo correria o risco de parecer inverossímil. E, da mesma forma, qualquer pessoa que se aventurasse também a conjeturar sobre suas preferências poderia facilmente parecer tão equivocada e impertinente quanto deselegante e ingênua. É bem possível, por outro lado, que quando se trata de Caetano Veloso qualquer risco valha a pena.
La leche buena toda en su garganta.
Eu resolvi correr alguns.
– O que mais admira nos homens: os ombros.
– O que mais admira nas mulheres: a proximidade.
– O que mais odeia: pessoas que ele não conhece e que o abordam com uma intimidade deslumbrada. Pessoas que se referem a ele com uma intimidade deslumbrada. Pessoas que repetem “Cae é demais”. Pessoas que elogiam João Gilberto porque ele elogia João Gilberto. Pessoas que gritam “lindo”, em seus shows, num irresistível acesso de originalidade. Pessoas que se repetem.
– O que mais espera dos amigos: muito. Caetano Veloso sempre quer muito.
– O que mais espera das amigas: tudo.
– Sua cor predileta: a mesma que tanto perseguia Mallarmé.
– Sua bebida preferida: Coca-Cola
– Sua fruta preferida: as mais sonoras. As com mais vogais: maçã, araçá, açaí.
– Suas palavras preferidas: cristalino; delicia; jasmim; seixo; avenca; yes; glória; Copacabana; seda.
– Seu sonho: acordar algum dia inteiramente transformado em Tom Jobim.
– Seu sonho secreto: acordar algum dia inteiramente transformado em Gertrude Stein.
– Seu sonho mais frequente:. é noite e ele está de pé, entre muitas pessoas, assistindo a um sacerdote pagão que não para de cantar, num templo antigo e branco, e em idioma homérico, uma canção quase incompreensível sobre o mar. O sacerdote está de pé, razoavelmente distante, e vestido com uma túnica branca e uma máscara antiga que, ao contrário das clássicas, nem chora nem sorri. A canção se estende por muito tempo, mas ele não sente nem sono nem cansaço, entre uma multidão de seguidores bronzeados. O lugar parece, de alguma forma, conhecido – como se fosse uma lembrança perdida no céu de uma cidade do interior. Ele olha para os lados e todos estão de olhos fechados, em silêncio. Começa a clarear. Sozinho e respeitoso, ele se encaminha até o sacerdote e tira sua máscara. O rosto, sob a máscara, é muito parecido com o do autor de Bim Bom. Amanhece. Caetano Veloso sorri e continua a seu lado, feliz, orando sobre patins.
– Sua maior curiosidade: conseguir descobrir, um dia, algum artigo inteligente escrito contra ele. Ou a favor.
– Seu melhor verso: “O sol é tão bonito”.
– Seu perfume preferido: o das mulheres.
– Seus personagens literários preferidos: Dorian Gray; Salomé; Molly Bloom; Jorge Mautner.
– Seu livro preferido: Caetano não tem nenhum livro preferido.
– A música que mais gostaria de ter escrito: ‘You’d be so nice to come home to’. ‘Eu sei que vou te amar’. ‘La flor de la canela’.
– Seus cantores preferidos: João Gilberto. João Gilberto.
– Suas cantoras preferidas: Mabel Mercer; Araci de Almeida; Billy Hollyday; Bessie Smith; Carmen Miranda; Lena Horne; Dona Canô Veloso.
– Seus compositores preferidos: Chabuca Granda; Jorge Ben; E.S. Discépolo.
– Suas gravações preferidas: ‘Isaura’, gravada por João Gilberto. ‘Ela é Carioca’, gravada por João Gilberto. ‘It’s Wonderful’ gravada por João Gilberto.
– Seus heróis: Esra Pound; Diogo Cão; O Surfista Prateado.
– Sua maior glória: ser considerado o maior poeta de Santo Amaro da Purificação.
– O quadro que mais gostaria de ter pintado: ‘Fenêtre Ouverte à Tanger’, pintado por Matisse em 1913. Caetano Veloso só substituiria Tânger por Amaralina.
– Sua maior ambição: ser imortal, depois morrer.
– Seu lema: o Havaí seja aqui.
– Sua maior influência: o Sol.
– Seus sentimentos mais cultivados: a alegria; a preguiça; a Bahia.
– O que mais deseja aos inimigos: boa sorte; boa viagem.
– Seus vícios preferidos: os do corpo.
– Onde moraria em São Paulo: na ponte aérea.
– Sua melhor lembrança de Londres: os discos voadores.
– Seu melhor momento no exílio: a volta.
– Sua melhor pátria: sua língua.
Tom Zé
Caetano dorme regulamente até as 14h. De modo que ir prendê-lo antes do meio-dia, e acordá-lo para isso, foi um pouco indelicado. Poderiam alegar que no quartel se dorme cedo. Se é que alguém dorme no primeiro dia de prisão, com aquele vácuo na cabeça (e aquele silêncio desabando).
CAE E TANQUES. Um dia eu vi dois homens de mãos dadas no meio da avenida Paulista, num sol quente danado. Um, era o policial; outro, o preso. Vi, e pensei um verso absurdo, começando uma canção: “Toda ditadura é sexual.”
Enfim, os grandes naqueles dias eram Caetano e os coturnos. Um pela graça, outros pela força concreta. E Caetano era tão indiferente! Vandré, por exemplo, não. Vandré ainda lhes fazia versos e em suas canções falava até de “soldados armados, amados ou não”, de quartéis e ideais, de pátria. Mas Caetano, não! Esse era indiferente que doía! Nunca nem fez um protestozinho pelo verde (ou contra o verde, vá lá, mas que fizesse alguma coisa!). Não, só falava de piscina, de margarina, de perna de Brigite Bardot… só alienação! Que indiferença! Que ingrato ele me saía! Curiosamente, Vandré nunca foi preso. Repito pra você não pensar que foi erro de imprensa: Vandré nunca foi preso.
COMO VANDRÉ ESCAPOU. Para prender Caetano, entraram no prédio número 43 da avenida São Luís, centro de São Paulo, subiram ao vigésimo andar e tocaram. A empregada e o motorista relutaram muito em chamar seu Caetano e dona Dedé àquela hora. Logo depois, tanto eles quanto Dedé (que veio primeiro) se convenceram de que Cae ia acordar cedo naquele dia. Mas antes de entrar de novo no quarto, Dedé parou quieta diante da porta, inspirou um “valha-me Deus!”, ouviu os visitantes dizendo algo baixinho, expirou e entrou para acordar Caetano.
Pouco depois ela estava na sala, sentada sozinha, tesa. Caetano tinha ido. Soava e martelava na sua cabeça o nome da rua, o nome da rua, o nome da rua de Vandré. ‘VALHA-ME DEUS!’ foi o que ela ouvira na hora do seu “valha-me Deus!”: foi o nome da rua onde mora Vandré. “Será que dá tempo?” – pulou para o telefone. Deu (alguns dias depois minha irmã Lúcia esteve com Vandré no  Chile)… Aí Dedé se lembrou que a porta ficara aberta. Pouco depois, na via Dutra, seguia para o Rio uma caminhonete. Cae e Gil estavam na traseira. Presos.
PAPAI NOEL. Eu só tomei o choque às 14h. Ouvi, abri a boca e o meu pensamento desgarrou-se para o programa ‘Divino Maravilhoso’ do Natal de 68, poucos dias atrás, na TV Tupi. Nunca vi cena tão violenta na minha vida. Era simplesmente Caetano, com um revólver na mão, a voz sossegada e musical, calmo e doce, cantando.
“Anoiteceu/ o sino gemeu
A gente ficou/ feliz a rezar…”
O revólver era empunhado sem ênfase. Esquecido na mão, o cano preto voltado para a plateia, sem focalizar ninguém, apontando ponto nenhum: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel…”
CONVIVER. Olhe, conviver com Caetano era assim de prazer e pavor. Era bom, muito bom. Tanto que quando o levaram preso, eu tive uma convicção louca: “Eles querem é ficar com ele! Querem é estar e tê-lo perto.” Que bobagem essa minha, não é? Mas que fazer? A gente só vê o mundo pela nossa cabeça. Na minha, levaram-no por paixão. E isto me dava medo. Isso me dava arrepio de medo!
ENSAIO 1. “Não, NÃO! Meta a faca no peito deles! Pegue a baioneta, salte na garganta e acabe com a fama deles! Vamos, mais uma vez!”
Nova tentativa, nova interrupção: “Não! Eu quero ver. Quero ver os fuzis na sua mão. Baionetas, dentes e ódio. Vá, mais uma…”
Nova tentativa… “Não, vamos deixar pra manhã. Descanse. Já acabei a garganta de uma, não quero arruinar outra. Amanhã voltamos…”
CAETANO ESTÁ AQUI! Os quartéis são pacatos. Uma vida devagar, chata… Mas você já pensou um quartel que o pessoal entra de manhã e pensa: “Caetano Veloso está aqui?!” Puxa! Os caras deviam ficar apanhados em sonhos. Uns procuravam versos esquecidos no baú, outros faziam poemazinhos apressados. Alguns chegaram até a mostrar ao próprio Caetano. “Vai ver que sou inspirado e não sei. Um poeta, quer dizer: um comunista!”
PELO TELEFONE. “E a acusação?”
“Não se confirmou nada.”
“Então tem que soltá-los…”
“Justamente por isso é que não podemos soltá-los. Então, teriam sido presos por nada?”
“Mas vocês não podem prendê-los eternamente!”
“É o diabo… prender foi fácil, justificar pra soltar é que é!”
ACAREAÇÃO. Caetano e Gil aguardaram pela terceira vez uma acareação, que novamente se frustrou. Caetano ficou indignado: “Primeiro a acusação foi de cantar o Hino Nacional na boate de Abelardo Figueredo, no Rio. Depois não foi mais no Rio, foi em João Pessoa. Depois não foi mais o Hino, foi mandar dinheiro para a guerrilha do Paraguai… Isso não está correto. Se alguém me acusa de alguma coisa, deve se decidir e dizer na minha cara.”
LINDONÉIA. Uma vez na cadeira do barbeiro do quartel, Caetano disse: “Corta meu cabelo!”
O barbeiro: “Mas… esse corte do senhor… Não tenho prática.” Caetano: “Corta igual todo mundo.”
“Como? O senhor está doido, seu Caetano?”
“É. Modelo anonimato. Vou pro outro lado do espelho. Corta!”
Quando ele se levantou, tinha juntado gente na porta da barbearia. Todo mundo queria ver Caetano de cabelo cortado. No quartel, foi um dia de muitas visitas. Do ponto de vista da moda, foi o maior acontecimento na caserna, desde a adoção do verde-oliva.
Assim, Caetano Emanuel Viana Teles Veloso mergulhou na fase do seu desejado anonimato. Ali pelo começo de maio de 69, viria o relaxamento da prisão. (Tinha que ir ao quartel toda terça-feira). Eles já estavam na Bahia e a revista ‘Veja’ fez uma reportagem onde Caetano era visto esperando num ponto de ônibus. Desconhecido e alheio. Lindonéia-de-calça-e-camisa, desatento da foto e da fama.
ENSAIO 2, 3, 4… “Não! Não está passando. Pule de faca sobre eles! Pegue a baioneta, salte na garganta e acabe com a fama deles! Vamos, você consegue!”
Bethânia, exausta, começou mais uma vez:
“Carcará, não vai morrer de fome!
Carcará, PEGA, MATA E CÔME!!!”
“Bravos! Já se vê um fuzil na sua mão”.
Augusto Boal, ensaiando Bethânia para cantar o ‘Carcará’, sorriu com aquela doçura dele. “Vá descansar e tome mel. Já acabei a garganta de Nara Leão, não quero destruir a sua. Meta o dedão no frasco e tome mel. Mel no dedão!”
Bethânia gravou ‘Carcará’ e vendeu 100 mil fuzis. Ou discos, se você quiser contrariar Augusto Boal. Mas eu prefiro fuzis porque com eles ela negociou o relaxamento da prisão, a transferência para a Bahia, o show no Teatro Castro Alves e o acordo para sair do país.
PELO TELEFONE. Bethânia: “Estou ligando para lhe agradecer, general. O show foi tudo bem e os meninos viajam amanhã.”
General: “… e diga a Caetano que não entendo de música mas, lá na Inglaterra, eu desejo que pegue a guitarra, salte na garganta dos gringos, acabe com fama deles!”
Bethânia agradeceu e desligou com a impressão de que já ouvira aquilo em algum lugar… Mas não conseguia se lembrar.
“Bobagem!”, exclamou, e saiu assobiando ‘Carcará’.
Antônio Bivar (1939-2020)
Que delícia, a gente viver de letras e ter sempre assunto sobre o qual escrever. E que bom, o lado romântico de nossas existências que fornece todo um manancial de temas para trabalho. Caetano no exílio, por exemplo. E eu ter sido lembrado por Marco Lacerda, editor da ‘Vogue-Caetano’, uma idéia, aliás, magistral, para escrever sobre o exílio do poeta. Aceitei sem pestanejar não só porque o exílio de Caetano foi também o nosso exílio mas porque, honestamente, posso escrever muito mais que as sete laudas encomendadas. Além do que, adoro Caetano e collector’s items. Não posso dizer que seja íntimo de Caetano mas privei de certa intimidade durante parte do tempo em que ele passou na adorável Londres dos anos swinging.
Quando Caetano e Gil foram embora do Brasil em 1969, antes e depois deles também rumaram ao exílio dezenas de outros artistas nossos. Sim, porque a barra aqui era aquele horror. O AI-5, a Censura e aquelas coisas todas que todo mundo cai de saber. Se hoje, 20 anos depois, a barra voltou a ser tenebrosa, a daquele tempo também não ficava atrás. Sem contar que a vigente, então, era a ditadura militar e nesse contexto inseria-se uma infinidade de ramificações não menos terroristas, vindas tanto da direita quanto da esquerda.
Quanto a Caetano e Gil, eles eram uma espécie de arautos dos novos tempos. Na condição de cantores e compositores populares, davam uma nova coloratura à mídia, ocupando um espaço único e inédito em frente as câmeras de televisão e sacudindo com coragem e audácia uma certa pobreza de imaginação que imperava. Caetano e Gil enxergavam uma luz no fim do túnel. E trouxeram essa luz para mais perto, para o alcance de todos. Era fogo e queimou. Provocou despeito, inveja, rancores etc. Foram presos.
Nessa mesma época, entre os artistas que foram exilados, ou que daqui fugiram, ou que voluntariamente se exilaram, por vários motivos, motivos que no final se entrelaçavam, é sempre oportuno lembrar que, entre tantos, uns mais, outros menos dotados, Chico Buarque e Glauber Rocha foram para Roma, Geraldo Vandré e Cacá Diegues para Paris, Rubens Gershman e Jorge Mautner para Nova York.
Quanto a Caetano e Gil, mal saídos da longa temporada de meses numa prisão baiana, prepararam malas e bagagens, suas mulheres e entourage e, de todos os mais avançados, foram para Londres, onde Guilherme Araújo, o empresário deles, já lá estava, desde 1968, preparando o terreno para os “meninos” (que era como Guilherme os chamava), uma gostosa e hospitaleira residência na Redsdale Street, no chique bairro de Chelsea.
Caetano e Gil foram em 1969 e ficaram mais ou menos três anos. Londres nessa época era meca. E Caetano e Gil, para uma geração de jovens brasileiros, eram espécies de papas, na detonação da cultura do desbunde consciente, que abrangia, além do tropicalismo e do liberal-festivo (que eles apresentaram aqui no instante em que similares explodiam mundialmente), também os love-ins, os drop-outs, os Beatles, os Stones, Andy Warhol, Mary Quant, os estilos pop e psicodélicos da vida e as trips todas.
Repentinamente ficou estipulado que era proibido saçaricar aqui e uma leva de criaturas brilhantes foi saçaricar lá fora, dando continuidade ao grande encantamento. Afinal, o mundo era jovem e nós, jovenzérrimos. Foram anos divertidos; para alguns, os melhores anos de nossas vidas; para outros, anos de bad trip, de muitas e fortes angústias – Caetano, por exemplo, tinha um côté altamente Gonçalves Dias e sofria, body (o frio, o frio…), and soul, aquilo que Gonçalves tão bem expôs em sua ‘Canção do Exílio’: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá…” Londres podia ter Palmeiras na estufa tropical em Kew Gardens mas sabiá não tinha. Se bem que interessantes gorjeios de aves locais não faltassem.
Foram anos de outros festivais que os da nossa Record. Os da Ilha de Wight, por exemplo, no último deles, festival em que se apresentaram pela última vez em suas carreiras Jim Morrison e Jimi Hendrix. Festival em que Caetano e Gil, incluindo nós todos, fomos convidados a dar uma modesta porém digníssima canja no palco. Saiu até na ‘Rolling Stone’, edição norte-americana, e no ‘Vogue’ francês, com foto e bandeira brasileira de cabeça para baixo (em sinal de protesto, foi uma idéia minha).
Escrevi um livro, ‘Verdes Vales do Fim do Mundo’ (L&PM, 1985), sobre um ano completo (1970) desse período. E ainda assim alguns críticos acharam que no livro conto muito pouco de Caetano no exílio.
Como terá sido o exílio de Caetano? Em suma, lembro-me dele como talvez o mais ajuizado, coerente e íntegro de todos nós. Levava a sério a carreira e com muito respeito pelo que dele esperava seu público. No que tangia às drogas, por exemplo, enquanto eu e muitos de nós embarcávamos em qualquer viagem – ácidos lisérgicos e similares eram vendidos a preço de maçã nas esquinas e nos parques -, Caetano nem pensar. Moderno, despreconceituado, não as engolia mas também não fechava a porta e nem a cara para os que experimentavam essas coisas. Afinal, éramos belos mas não éramos malditos. Éramos meio que inocentes e sem maldades. Malícia, talvez – e o próprio Gil via a malícia como coisa positiva.
Éramos, afinal,  bbyppies – brazilian bright young people. Os ingleses adoravam nosso espírito alegre, o nosso jogo de cintura, o nosso traquejo. Entretantos – e aqui eu precisava de mais espaço para citá-los todos -, lembro-me de Johnny Howard, carioca, fotógrafo, na época casado com Mariana Rodrigues Alves, descendente de um de nossos presidentes; Péricles Cavalcanti, parceiro de Caetano em muitas músicas; o arquiteto Sérgio Prado e a comunidade de seu irmão, Cláudio, na Cromwell Road, onde Guilherme Araújo ia flertar com os teen-agers e onde Gil muitas vezes foi tocar violão e cantar.
Tinha a casa de Maria Helena e Artur Melo Guimarães na Jay Mews, em South Kensington, onde Mautner, chegado de Nova York, reunia a turma para estudos dos pré-socráticos. Fez até um filme, O Demiurgo, estrelado por Caetano. O apartamento de Helena Ignez e Rogério Sganzerla. Rosa e Julinho Bressane (Julinho chegou a rodar fita em Londres, nesse tempo). O dramaturgo José Vicente (que depois teve peça montada em Paris, com Norma Bengell); os jovens socialites Diduzinho de Souza Campos, Álvaro Catão Filho, Johnny Sales, Renata Souza Dantas.
Estrelas, como Odete Lara, que vinham e de passagem hospedavam-se chez Guilherme Araújo, que, aliás, dava reuniões e jantares deliciosos; Leilah Assunção, Rodrigo Santiago, Ezequiel Neves, Clóvis Bueno, gente que passava temporada com a gente que lá vivia. E depois, nessa época, alugar casa em Londres era a coisa mais fácil do mundo. Era chegar na agência, qualquer agência, pagar uma semana adiantada e pronto. Nem documentos eram exigidos. E os aluguéis eram baratíssimos.
Íamos ver a Elizabeth Taylor dando palestra na Roundhouse. Íamos descobrir ídolos (Rod Stewart, por exemplo; aliás, Lou Reizner, co-produtor do LP que Caetano gravou em Londres – para o qual fomos convocados para os backing vocals em duas músicas -, era o mesmo produtor de Rod Stewart). Íamos para o country side. Ficamos todos nus na Ilha de Wight, inclusive Gal Costa (de visita). Tinha a Mercedes Rubirosa, modelo argentina vistosíssima, hoje directrice da Maison Chanel em Paris. A Lodo, portuguesa e que hoje, em São Paulo, é directrice do Ritz e que morava, assim com Antônio Henrique (hoje dono do Tapete Voador), na casa de Artur e Maria Helena.
Os pintores Aguillar e Antônio Peticov. Tinha o Américo Marques da Costa Filho e Teo Arantes, da melhor sociedade paulista e que, meninos ainda, praticamente fugiram de casa para se casarem em Londres. Tinha a Juanita (o pai era cônsul em Marseille), a Dilme Mariani (o marido era banqueiro). Tinha a Naná Sayanes, que hoje é premiadíssima como uma das grandes diretoras de comerciais de nossa televisão.
Lavávamos as nossas bastas cabeleiras com xampu ZP-11 (indicado por Caetano) e íamos fricar em Stonehenge na cerimônia dos druídas (hoje tão em voga, com As Brumas de Avalon). E assim eram as nossas vidas. Exercitávamos as nossas artes, uns compunham, outros escreviam, uns faziam filmes, outros frequentavam a escola e o dentista. Tudo era meio que de graça, pagava-se apenas uma suave taxa. E de um dia para outro podia chegar quem menos se esperava.
Teresa Raquel, por exemplo, que sem querer perder tempo, almejava ver tudo o que estava acontecendo em cinco minutos. E lá ia Teresa para New York, deixando para José Vicente o seu casaco de pele (que pertencera a Tônia Carrero): Ríamos muito (o maior sorriso era da Maria Helena do Artur). Ou, de repente, Florinda Bolkan, chegada de Roma, que telefonava. Ou, de Paris, Geraldo Vandré (Caetano não estava em sua casa na Redsdale Street, e nem no café Picasso, a poucos quarteirões; estava na Catalunha, Espanha, de férias, adorava). Ou Nara Leão, com Isabel, filha dela e Cacá Diegues, ainda uma pequerrucha, hóspedes de Guilherme. Caetano e Gil eram ímãs.
A música pop e a swinging London eram ímãs. E atraíam. E iam chegando, daqui e dali, de todos os lugares, gente fascinada pelos modelitos fortes de Mr. Freedom. No final de 1970 John Lennon detonava o fim do sonho. De Chelsea para Notting Hill Gate se mudavam Caetano e Gil, agora em casas separadas. O segundo inverno era ainda mais forte que o primeiro. E depois, dizia Caetano, aquilo do Tâmisa virar uma pista de gelo só mesmo no Orlando da Virginia Woolf.
Caetano, apreensivo, voou para o Brasil, de férias. Encontrou Elis Regina, todo mundo, e adorou o que viu na praia de Ipanema, as pessoas lindíssimas, liberadíssimas, exibidíssimas, nas Dunas da Gal. Todo mundo tinha virado santo, inclusive Maria Gladys. Que, não demorou, também foi para Londres. Ela, Neville de Almeida, Liege Monteiro, uma nova leva. Mas aí já era hora de voltar e voltamos. E aqui estamos, neste final de outra década, de tempos tão dark e insatisfações tão semelhantes.
Mas hoje, apesar da decantada transferência de Tom Jobim para New York, os tempos lá fora não estão para exílio voluntário. E, depois, podendo ficar no Brasil, é aqui mesmo que a gente permanece. Mesmo porque existe uma promessa no ar que, depois de longo exílio, Deus voltará a ser brasileiro.
Paulo Leminski (1944-1989)
Na caprichosa geografia da MPB, onde fica exatamente a linha fronteiriça que separa a mera mercadoria descartável daquela matéria mais “nobre” que poderíamos chamar pomposamente de “produto cultural”? Haja bandeirantes para atravessar essas Tordesilhas.
A resposta mais simples e mais cômoda seria dizer que é a linha que separa o lugar (ou tempo) comum do lugar incomum, alvo natural da “grande arte” (isso, pelo menos, no século 20 e nos tempos em que ainda se acreditava no fantasma/fetiche de “grande arte”).
O lugar comum é um balneário vulgar, desses todo mundo frequenta em busca de emoções fáceis, um pedaço de mar e areia, sorvete e bundas bronzeadas.
O outro é dessas coisas como visitar Dalai Lama no Tibet ou dar um pulo até o Polo Norte para ver a aurora boreal ou sol da meia-noite.
Outra resposta seria dizer que o lugar comum vende. E o incomum encalha.
Mas nenhuma das duas respostas satisfaz.
Roberto Carlos e Erasmo, os símbolos vivos, hoje, do óbvio e do aceitável, pelo menos em seus primórdios sempre souberam registrar comportamentos novos em versos às vezes surpreendentes (como o clássico “e que tudo mais vá para o inferno”, dos bons e banais tempos da Jovem Guarda).
Hoje, sim, Roberto, com sua vendas imbatíveis, virou o Rei do Bananal, o garçom do Grande Restaurante do consumo médio, lisonjeando sistematicamente o quadro de expectativas de um público médio, seus valores, seus fetiches, suas emoções corriqueiras. Ser raro sai caro. Roberto, mestre do feijão com arroz e do papai mamãe, não pode mais correr o risco de correr riscos.
Em música e verso, é o “coqueiro que dá coco” da memorável obviedade de Ari Barroso. Não adianta pedir abacate para uma bananeira.
E suas canções, um dia bandeiras de uma juventude inquista e ávida de novidades (não foi ele o poeta do automóvel, com seus carangos e cadilaques, de saudosa memória?), hoje servem para embalar massas de paladar suburbano e provinciano.
Ótimo material para cientistas sociais levantarem o quadro mental e sentimental dos grandes públicos e seu apetite voraz pelo kitsch e pelo ouro falso das “grandes emoções”. O lugar comum não é tão desprezível assim. Sem ouvir Roberto, não dá para entender o brasileiro atual.
No pólo oposto, Caetano Veloso, o campeão do raro e do inesperado, sistemático agressor, musical e poeticamente, do panorama de expectativas gerais, preso e exilado, execrado por uns, idolatrado por outros, sempre polêmico, despertando pauleiras a cada disco e até a cada entrevista (agora até com um filme para botar lenha na fogueira).
O grande paradoxo, nisso tudo, é que Caetano consiga o milagre de, com tanta agressiva novidade, ser e se manter altamente viável em termos de mercado fonográfico, radiofônico e televisivo. Sinal de que há e cresce um público considerável, faminto e sedento de iguarias raras, de outras palavras e outros sons.
No entrechoque entre a passividade de Roberto e a iconoclastia de Caetano, a MPB vai desenhando o perfil dos vários repertórios em que se divide o público brasileiro consumidor de música popular.
Alguma coisa acontece no coração do Brasil, entre o tilintar da caixa registradora e a avidez de novos horizontes musicais e poéticos. Entre o eterno sim de Roberto e o não irresistível de Caetano.
Matinas Suzuki Jr.
1  Caetano fez múltipla a mínima moralia brasileira. O eterno criar pressupõe a erupção de novas informações injetadas no canal do para sempre mais sensível, e não é bastante ser poeta. A poesia é a promessa do finalmente feliz mas, como na inauguração da modernidade de Baudelaire (feminino, poesia) ou na restauração de Maiakóvski (masculino, história), é preciso mudar os fundamentos do Sim, do Sim, do Sim.
E até hoje: por que não?
Ele mudou tudo. E tudo é muito pouco.
A criação é o verbo e a vida a sua criatura. É da palavra (en)cantada que brota novo ser em 33 rotações por minuto. Caetano pôde mudar o comportamento de uma geração porque foi o primeiro a dizer Não ao Não. A verdadeira revolução não re-volta-se de um lado só. A filosofia grega ensinou que quem conseguia debulhar a multiplicidade do único, atingia a essência da beleza. A beleza precisa ser maior do que a verdade. A ruptura com as equalizações convencionais (o consenso da norma estagnada) entre as maneiras de produzir arte e de produzir vida colocou Caetano no umbigo das necessidades sensitivas e existenciais do país meio atrasado meio potência do final do século. A equação da revolução caetan-ética: relativizar o absoluto, absolutizar o relativo. Ou ao contrário.
2  Acalanto de nossas impossibilidades. O vero vir a ser (transformação, transformar com ação) é um arco teso para muito além do Bem e do Mal, do Apolo e do Dionísio, do ser coelho ou ser coelha, do oculto e do óbvio, de Deus e o Diabo na terra de nós sós, dos nossos sóis. Tangência das oposições: terceiro milênio, terceiro mundo, terceiro sexo, terceira margem do rio.
A moral da modernidade faz o homem realizar-se como um conflito – ora trágico, ora de absurdo. Existirmos, a que será que se destina? À ideia de fratura do pós-tudismo ou pós-utopismo de nossos dias (que se realiza mais ou menos assim: o homem contemporâneo já não sabe distinguir mais o certo do errado, o bom do ruim etc. a vida seria uma série infinita de mediações, de parcialidades) Caetano contrapõe alguma força mítica que, hipótese reversível como tudo no mundo, franquearia a superação deste estado das coisas.
O nadismo pós-moderno não reconhece nenhuma via de acesso para a ponte acima da barbárie tecnologizada em que vivemos: não há nada de novo sob o sol que possa ser criado na estética e na ética etc., e portanto a postura de Caetano suporia um anacronismo estilístico e comportamental.
Na verdade, ocorre o inverso. A reiteração do impasse da modernidade é que é o velho, agora. Em primeiro lugar, porque a fulguração em superar o aparentemente insuperável não se faz apesar do neodecadentismo do moderno, mas a partir dele.
Depois, é sempre difícil que o satélite-Caetano banhe as nossas parabólicas com toda a força épica do distante navegante porque somos pobres demais para sintonizar o seu efeito-deslocamento: agora ele já não é mais o que foi; agora ele já não é mais o que será. Toda tentativa de julgá-lo será fracassada. Significa mais do que aparenta significar, diz mais do que aparenta dizer. Como descobrir a ventura da aventura do equilibrista em cima do muro? O desejo que se realiza é o desejo fraco, dizia o poeta. Qual é o signo que se tenta ler e ser? O futurismo russo ensinou que a alguns artistas é dado o direito de falar de si como se falasse de toda a sua época.
Tenho tantas coisas a dizer pra Caetano. Ele faz coisas tão lindas. Olha, Caetano anda dizendo por aí que eu sou gênio. Diga pra ele não falar assim, não. O gênio é ele. Caetano é um poeta. Caetano está lá no alto, lá no alto, lapidando a inteligência. Tenho tantas coisas a dizer pra ele. O que é que eu vou dizer pro Caetano? Não, não diga nada disso. Diga que eu vou ficar olhando pra ele.
Caetano ocupa um lugar tão grande ou maior do que o da minha família na minha vida. O que ele significa pra mim é igual ao Pão de Açúcar, um ponto de referência. Tem uma importância total na minha vida, influência em todos os aspectos. Quando quero fazer uma coisa ligo para ele e pergunto o que acha, a gente tá sempre procurando coisas novas. Mas também é uma pessoa que eu posso passar três meses com ele só falando bobagem e dando risada.
É engraçado que ele, sendo uma pessoa tão reverenciada, sempre cercado de tanta gente, e que tem um tempo tão pequeno pra imensidão de sua personalidade, seria supercompreensível que fosse um amigo restrito e, ao contrário, talvez seja dos meus amigos o mais dedicado. Supergentil, disponível. E eu acho que isto é uma conquista que tem tudo a ver com a educação que ele recebeu: a casa dele em Santo Amaro é uma casa que a porta nunca fecha, funciona como central de amor pras pessoas. E isso ficou com ele.
Antes de eu conhecer o Caetano, tinha uma admiração enorme por ele. A gente tem uma intimidade de dia a dia, de dor de barriga e conta de banco. A amizade não desmistificou Caetano pra mim, pelo contrário, e uma coisa que me impressiona muito nele é como não tem uma distância entre o que ele faz e o que diz. Se ele fala no show que acha absurdo quem passa o sinal vermelho, briga por isso na rua também.
Tem senso de justiça superaguçado, defende as pessoas fulltime. E me dá uma coisa que me faz muito bem, que é uma confiança muito grande no amor dele, e eu gostaria de passar este sentimento para todas as pessoas e para toda as áreas da minha vida. Eu acho maravilhosa essa coincidência de ter nascido na mesma época e no mesmo lugar que o Caetano. Um golpe de sorte bem forte, bem bom.
O que um mero retratista pode falar a respeito do imenso Caetano? Muito já foi dito, talvez eu tenha dito algo, visualmente, através dos retratos que fiz. Mas, de novo, muito já foi feito e vemos sua imagem estampada, milhares de vezes, em todas as mídias possíveis.
Sempre fui e vou às sessões fotográficas com ele meio vazio de ideias, e espero sua presença luminosa para que as ideias venham. E tem sido assim, Caetano o preenche, não deliberadamente com algum tipo de performance, ou me dando sugestões de como fotografá-lo. Ao contrário, ele recebe a “direção” e finge obediência. E o fato de estar diante da pessoa cuja opinião me importa, suscita em mim um certo comportamento cerimonioso e reverente, fundido a uma intimidade adquirida ao longo desses anos, desde que o conheci em 1979. Tive a sorte de retratá-lo inúmeras vezes no meu estúdio e outras em que privei de conversas em sua alegre e movimentada casa.
Eu digo sempre por aí que o resultado de uma sessão de retrato é o mero resultado de um encontro e que este obedece à natureza dos encontros, ou seja, há algo que é planejado: horário, roupas, câmeras, luz. No entanto, há outro algo que foge às premissas iniciais, uma imponderabilidade, arriscada e almejada por mim, quando fotografo alguém. No caso de Caetano, ele em si já é continente e garante o interesse pela imagem resultante. Eu, diante disso, viro um vetor desse fluxo de intensidade que sua presença garante. E tento exaurir o máximo de possibilidades desse fluxo, estimulando gestos, poses e movimentos. Tremo, mas as imagens saem, quase sempre, nítidas.
Gosto muito de Caetano Veloso. Acho um grande compositor, dono de uma voz linda, com um timbre delicadamente lindo. Ele e Bethânia. Os irmãos tem um timbre de voz muito bonito. Caetano é um grande artista brasileiro. Tenho a maior admiração por ele. Caetano é grande, grande, grande, cheio de força e inspiração.
É meio difícil, porque já se falou tanto e ele tem tantos lados diferentes. Acho que o lado que mais me fascina é o Caetano que busca a potência da linguagem pelo caminho mais básico, como, por exemplo, no verso “gente quer respirar ar pelo nariz”. Nesse momento, ele parece realizar o que propõe no final da música ‘Um índio’: “Jogar luz sobre o óbvio”.
Conheci Caetano quando ele veio para São Paulo. Era aquele menino meio inocente que caiu numa cidade louca. Depois de ‘Alegria, Alegria’, nunca mais cruzei com ele. Inclusive hoje, voltando do cabelereiro, ouvi uma música que tem tocado muito no rádio, cantada por ele, uma velha música do Roberto Carlos, aquela ‘Fera Ferida’. Achei extremamente romântica. Então, Caetano, que era um cantor de protesto, está fazendo as pessoas voltarem para o romantismo. Acho até que ele está protestando contra a falta de romantismo.
Caetano sempre esteve à frente de seu tempo. No festival de música popular da Record, assombrou a esquerda com uma posição estética que a mandou para o museu. Nos palcos do Rio estremeceu os alicerces machistas num momento em que ainda era absolutamente perigoso um homem mostrar seu lado feminino. Mas isso não o define. Mesmo se fosse uma pessoa retrógada, suas canções ficariam eternamente gravadas no imaginário coletivo dos brasileiros. Acho Caetano um desses artistas que marcam para sempre uma cultura e um país.
Na época dos festivais da Record eu estava iniciando o meu período de cassado, que começou em 1969. Lembro-me desses festivais como me primeiro contato visual com Caetano. A partir daí comecei a acompanha-lo com extrema simpatia, cruzando com ele em solenidades, aquela figura humana de olhos brilhantes e pesquisadores. Se não bastasse isso, foi do seu talento que nasceu ‘Sampa’, uma inspiração permanente. É um retrato pintado com cores extremamente lindas. Ouvi-la é sentir que nasceu de uma alma profundamente generosa.
Sempre deixei clara minha maior admiração pelo Caetano. Inclusive, em termos de influência. Foi Caetano o influenciador. Na Tropicália eu ficava encantado com sua diferença, sua originalidade. Ele acenava com uma mentalidade moderna que não existia até então. É um dos maiores poetas brasileiros. Me interessa saber onde a cabeça dele está.
Não sou muito chegado à música, por isso não tenho o que falar. Esses músicos não fazem muito o meu gênero. Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, em absoluto não fazem o meu gênero. Para mim, é como se não existissem. Essa coisa de músico metido a político, de barbicha, cabeludo…A única música que perco tempo em ouvir é a clássica ou um belo samba-canção.
Caetano é um sedutor. É uma pessoa muito especial. Tenho uma visão dele muito – como é que posso dizer a você –, muito encantada. Um poeta agudo, um ser bonito.
Se ouço? Como não, tenho disco dessa gente toda lá na fazenda.
Caetano age à distância. As grandes transformações não são mais visíveis. Ele canta músicas como se fossem novas. Faz você entrar em contato com você mesmo. Renascer. Devolve tua cidade, teu ciúme, tua história. Recolhimento. Interiorização. As grandes transformações são internas e pequenas. O trabalho dele está grandioso porque está maduro. Tem a ver com o caminho dele: parar de pensar e parar para pensar. É o jogo que ele consegue hoje com plenitude
Adoro. É o artista, no Brasil, que dá os melhores toques para as pessoas, em todos os níveis. Porque ele saca o coração coletivo do Brasil. Dá toques, ajuda a viver. Meu livro ‘Morangos mofados’ é dedicado a ele. Uma história que vem desde a Tropicália. Foi o que me fez fumar o primeiro baseado, tomar o primeiro ácido.
Não sou fã de Caetano Veloso. Sou devedora. Emoções, alegrias, dúvidas e confirmações. O que mais se pode receber de alguém? Assim tão generoso, tão louco? Tão reverenciado e tão injustiçado? Autor e obra em harmonia. Que graça, meu Deus! Medo e coragem. Enfim, antes Zen do que sem, não é, meu bem?
Caetano é uma das pessoas, artista e amigo, mais porreta que existe no mundo. Para mim, só tem um pequeno defeito: gosta muito de mulher.
Caetano não precisaria fazer mais nada daqui para a frente. O nome dele já está inscrito na cultura brasileira. É um dos nomes mais importantes da cultura brasileira do século.
A contemporaneidade permanente de Caetano, em silêncio dizendo mais do que sempre, não vem de aproximações com sinais externos de modernidade. Sua novidade vem sempre de dentro. Dele próprio. Antes durante depois vive dentro desse rio que passa igual, sem fim ou mesmo sem princípio. Seja Giulleta Massina, seja Neguinha, seja Nouvelle Vague ou Nouvelle Vogue, não rendeu aos tambores ou à eletrônica o conceito de velho ou novo, não escolheu além de si mesmo como razão e sentimento do mundo e do tempo, tempo, tempo. Está cada vez mais maduro, é cada vez mais menino, bebendo a cajuína a que nos destina.
Meu trabalho com Caetano começou no início dos anos 60, logo que ele chegou ao Rio. Hoje ele é o meu amigo mais íntimo. É a pessoa com que meu mais falo. Ele adora bater papo. Se eu vejo uma coisa nova, um livro, passo pra ele. Também falamos muito sobre a vida. Uma grande qualidade de Caetano é que ele é uma pessoa de uma honestidade total, é inimigo da mentira, uma coisa tão rara.
Caetano tem uma vida superequilibrada, faz apenas o trabalho necessário para viver com comfort. Faz só o que realmente tem interesse em fazer. Nunca se permitiu fazer alguma coisa só por dinheiro. Não se trai. É muito fácil trabalhar com ele, porque, além de ser uma pessoa ótima, é também um criador.
Hoje, além de cantar cada vez mais bonito, se autodirige. O cantor é um personagem dele próprio, e eu acho que o homem Caetano Veloso conhece muito bem o artista Caetano Veloso. Como profissional, eu acho que ele é cada vez mais corajoso, sempre marcante.
Como amigo, é muito carinhoso, e comigo, entre outras, fez uma que me deixou muito comovido: quando minha mãe morreu, há uns cinco anos, Caetano, que detesta missas e enterros, e detesta acordar cedo, veio me pegar em casa às 8 horas da manhã para a missa de sétimo dia. Isso me emocionou muito. Ele é de fato muito cuidadoso com os amigos, sempre disposto a manter as coisas. Basta ver a relação entre ele, Dedé (ex-mulher) e Paula, em que todos se gostam, se respeitam e querem ver o outro feliz. Ser amigo de Caetano é realmente uma das coisas fundamentais de minha vida.
Caetano Veloso
Há flores de cores concentradas
Ondas queimam rochas com seu sal
Vibrações do sol no pó da estrada
Muita vida, quase nada
Cataclisma, carnaval
Há muitos planetas habitados
E o vazio da imensidão do céu
Bem e mal e boca e mel
E essa voz que Deus me deu
Mas nada é igual a ela e eu
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