Como a Fresno sobreviveu ao hate e se tornou a banda de rock do Brasil – UOL

Pedro Antunes, ou “Pô Antunes” pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um “novo disco favorito” por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.
Colunista do UOL
05/11/2021 04h00
Em pelo menos dois momentos, ao longo de mais de 20 anos da estrada, a Fresno foi a maior banda do Brasil.
O primeiro deles, entre 2008 e 2011, ocorreu no auge da última grande onda de rock nas rádios e pico do movimento emo brasileiro. O ápice foi a capa da Rolling Stone Brasil (em um textão saboroso da ex-editora Bruna Veloso, aliás), em 2011.

Na época, a popularidade de Lucas Silveira e sua trupe era tão grande quanto o ódio que recebiam.
Hoje em dia a gente chama de “hate”. Na época, era só um rancor inexplicável. Qual era o problema? A franja? As calças jeans apertada? As músicas emotivas?
Para mim, era inexplicável então e é ainda mais incompreensível hoje em dia, quando a sociedade parece ter evoluído em debates sociais.
Mas a Fresno (mas você pode chamar também de “o” Fresno) é o maior símbolo de resiliência roqueira de uma geração inteira.
“Teve muita coisa ruim, né, cara? Muita chatice. Todo aquele bullying que a gente sofreu no auge do emo ali mexeu psicologicamente com todo mundo. Foi terrível comigo, mas sei lá, a gente sobreviveu, né? A banda sobreviveu às custas de muita terapia, também. Mas olha só: o que já rolou com a gente aqui? Das bandas que começaram com a gente, são poucas que estão aí de pé. Tem o Glória, que é um bastião também, mas muitas pararam, ou pararam e voltaram – e nada contra, tudo bem, é assim mesmo. Banda é um casamento muito treta. E a gente está aí, inteiro, de alguma maneira. Isso é muito foda.”
Lucas Silveira, vocalista da Fresno
Enquanto outros tantos grupos pararam pelo caminho, seja diante do ódio, de uma indústria sanguessuga e podadora, pelo cansaço do que é ter uma banda ou por tudo isso combinado, Silveira e banda seguiram.
Claro, o grupo não passou ileso sem baixas, com pequenas ou gigantescas revoluções. Saíram do posto de maior grupo do País e bastiões do novo rock à banda independente mais uma vez. Integrantes vieram e foram. Ganharam discos de ouro, mas também amargaram o silêncio ensurdecedor da crítica musical que os ignorou em outros projetos.
São poucos os artistas capazes de conquistar este topo em dois momentos tão distintos da carreira.
Se no final da primeira década dos anos 2000, o cenário era favorável para esta ascensão do rock brasileiro, amparado pelo resgate do garage rock promovido por The Strokes lá em Nova York, uns dez anos antes, os anos 2019, 2020 e 2021 mostram a indústria fonográfica como um deserto de ideias criativas com os pequenos oásis de água potável sendo sugados cada vez mais rápidos.
E, com a casca-grossa adquirida depois de tanta pancada levava ao longo da vida, a Fresno surge como um inegável foco de criatividade no rock brasileiro com um alcance acima da média para bandas do gênero, sempre mais presas às estéricas visuais e sonoras mais robustas.
Dona de uma base de fãs que vai da turma que era adolescente nos anos 2000 ao pessoal que chegou agora graças ao boom do pop punk e também aos trabalhos de produtor das estrelas do pop de Lucas Silveira (que assina brilhantes trabalhos recentes de Priscila Alcântara e o novo de Manu Gavassi, ainda inédito), a Fresno chega ao segundo ápice.
De volta a uma grande gravadora, com contrato assinado com a BMG, o grupo acertou em cheio com “Sua Alegria Foi Cancelada” (2019), álbum bem-sucedido para a crítica musical que ainda resiste, com destaque nas principais playlists editoriais das plataformas de streaming e de shows com potencial altíssimo.
Não por acaso a banda foi anunciada como atração no Lollapalooza 2020 que acabou adiado e cancelado devido à pandemia de covid-19 e voltou ao line-up do festival na edição 2022.
“Sua Alegria Foi Cancelada” colocou o som da Fresno em contato com timbres inéditos, conectou o grupo com artistas do pop e do R&B de uma novíssima geração, como Jade Baraldo (em “Sua Alegria Foi Cancelada”) e Tuyo (“Cada Acidente), e reaproximou o grupo à temática emotiva e existencial do início da carreira, mas agora com a perspectiva da vida adulta diante de tudo.
O novíssimo “Vou Ter Que Me Virar” é mais que uma continuação do trabalho anterior. É um avanço estético, porque a Fresno se permite ousar mais. O impedimento do grupo de seguir em turnê os colocou para criar e revisitar material antigo.
Enquanto os sertanejos faziam lives gigantescas com infraestrutura de show em estádio, Lucas segurava suas lives do estúdio de casa descobrindo como essas coisas funcionavam.
Formado atualmente por Lucas Silveira (voz, guitarra e teclado), Gustavo “Vavo” Mantovani (guitarra) e Thiago Guerra (bateria), a Fresno bagunçou os algoritmos das plataformas de streaming com o projeto INVentário, uma playlist com 21 músicas que reinventam sonoridades e conectam a banda ainda com mais artistas, de Jup do Bairro a Terno Rei.
“Vou Ter Que Me Virar” é uma ode à resiliência. É uma resposta a todo o bullying sofrido pela banda por décadas. É um “sobrevivemos”. E também o melhor álbum do grupo (talvez de toda a sua jornada – e digo isso ciente de que vou mexer num vespeiro ao falar algo assim).
O samba-emo de “6h34 (Nem Liga Guria)” conecta o grupo à Cartola, mas também aos Los Hermanos e à nova MPB. Ao mesmo tempo, o grupo se alia ao maior do pop nacional, Lulu Santos, em uma faixa surpreendente. Com a banalização dos featurings, “Já Faz Tanto Tempo” realmente encontra que há em comum entre o som da banda e de Lulu.
Há samba e pop, mas também composições musculosas como, “Fudeu!!!” e “Eles Odeiam Gente Como Nós”, que são políticas possuem riffs atordoantes de guitarra.
E também mexe nos furdunços que são nossos sentimentos, como a acachapante “Casa Assombrada”, que soa como uma sessão de terapia reveladora.
A seguir, Lucas e Guerra conversam com a coluna sobre o novo álbum, como usar o Instagram para se aproximar de estrelas do pop, os altos e baixos do grupo, como desviaram do ódio como Neo desvia de disparos em “Matrix” (“a custa de terapia”, segundo Lucas), e o que os faz seguir firme no sonho de ter uma banda de rock. Mesmo que o conceito de rock, como Lucas mesmo diz, seja bem mais amplo. Cá entre nós, ainda bem.
O texto de apresentação diz que vocês fizeram 42 versões deste disco. É verdade? Isso significa uma versão diferentona tipo bossa nova ou nem tanto?
Thiago Guerra: “Vejo mais como uma relação com o tempo que tivemos para acabar o álbum, que foi maior do que o habitual. Com o ‘Sua Alegria Foi Cancelada’, a gente já estava pensando numa versão deluxe, com algumas inéditas, então o Lucas já vinha compondo desde lá. Aquilo acabou se transformando neste novo disco.”
Lucas Silveira: “Foram 42 mesmo, mano. Mas ó: elas se parecem, tá? Mudou pouco entre uma versão e outra, mas para nós essas mudanças foram cruciais. O disco estava pronto em 31 de dezembro de 2020, mas sentimos que algumas músicas que estavam ali não faziam mais sentido. Não estaria fresco, sabe”?
“Sou muito sinestésico nesse negócio de querer emendar as músicas no mesmo tom. Você vai perceber isso ouvindo o disco, são todas grudadas uma na outra. Quero provocar uma audição que seja uma surra na primeira metade do disco, que elas não deixem você respirar. Isso traz uma audição mais global e frenética para o álbum”
Lucas Silveira
Lucas, você se tornou o produtor das estrelas. Esses trampos no pop, eles te libertaram de algumas amarras pra Fresno, mesmo que fossem inconscientes e vindos de uma época? Você sente isso?
Lucas: “Adorei o produtor das estrelas! Esses trampos do pop com certeza me desamarraram de algumas coisas. Mas, velho, acho que isso vem há muito tempo, estão no DNA, do pagodão ao Charlie Brown Jr.. Assim, tudo é pop e radiofônico. Essas coisas falaram com o país todo. O popzão está na nossa alma. O meu negócio é melodia, né? Mesmo se eu gritar ou se fizer algo agressivo e torto, tem uma melodia como guia. É ela quem dá a emoção, quem suscita imagens na cabeça.”
“Quando a gente pensa em culinária musical, dica mais fácil de entender. Porque são todos ingredientes ou sabores, né? E você vai adicionando e fazendo as paradas.”
E qual foi o papel criativo do projeto INVentário em levar isso tudo pra Fresno? Três músicas do álbum – “Eles Odeiam Gente Como Nós”, seguida por “Agora Deixa” e “6h34 (Nem Liga Guria)” – foram mostradas nessa playlist, afinal.
Guerra: “Era uma campanha para o álbum. Trouxemos músicas que não entraram em outros álbuns e coisas antigas, de outros projetos, como o Visconde, do Lucas. Mexemos no que tínhamos guardadas no HD. Ao mesmo tempo, atingimos públicos diferentes. Chegamos em 12 playlists editoriais, de pop, de MPB, de rock e eletrônica.”
Lucas: “Foi uma entressafra perfeita. Acabamos tendo coragem de fazer músicas novas. O principal ponto do projeto era não pensar se alguma música era isso ou aquilo. Foi um exercício de desapego, pro público também. Movimentou bem nosso público, deixou os algoritmos confusos e isso foi premeditado.”
Como se conectam os dois discos mais recentes na opinião de vocês?
Guerra: São muito conectados. Acho que pode ser até uma longa viagem, como um disco duplo. Sempre vi como discos irmãos.
Lucas: São álbuns que conversam. Eles fazem parte de uma fase nova da Fresno, quando chegamos em outras pessoas e voltamos a falar de coisas mais introspectivas. Voltou a ser pop também, no sentido de ser mais direto. ‘Sua Alegria…’ ressuscitou a banda. Eu adoro ‘A Sinfonia de Tudo Que Há’ e vou levar este álbum para sempre. Os fãs também. Mas acho que era outro momento da banda, em que não tinha tanta gente olhando pro que a gente estava fazendo. O ‘Sua Alegria…’ é uma volta aos básicos, de se organizar, de divulgar o disco, de fazer clipes. E muita coisa mudou e o disco nos encorajou a fazer esse próximo, né? Um é consequência do outro. Estou mais confiante ainda, sabe? Quando você está confiante, é a melhor coisa que existe.”
Queria entender a origem de “Já Faz Tanto Tempo”, a música com Lulu Santos.
Guerra: “O Lulu é uma unanimidade. Ele entrou na casa de todas as pessoas com um pop muito bem feito. O Lucas aproveitou muito bem essa questão do Instagram e das redes sociais para fazer os contatos e conseguimos trazer o Lulu. Estamos muito felizes com isso tudo.”
Lucas: “Lulu é Lulu, né? A gente já tinha terminado o ‘Sua Alegria…’ quando fizemos essa. Mas ela sairia em uma versão deluxe do disco e ela entraria ali. Mas a gente pensou que essa música era muito boa. Pensamos em chamar alguém para amarrar isso. Como ela mostra uma incursão bem forte nossa para o pop, achei que nada mais justo do que chamar o cara do pop do Brasil, um dos arquitetos do pop brasileiro. E do rock também, tá? Esse cara não joga uma sílaba fora. Foi muito louco porque eu não o conhecia pessoalmente. Quando descobri que ele me seguia, isso foi meio caminho andado.
O disco tem um samba-emo que é inédito. Digo, sambas emotivos existem há tempos, mas esse tem origem no emo e chega on samba. A Fresno se tornou uma entidade musical fluída? Vocês sentem que podem soar dançantes, melancólicos ou o que for.
Lucas: “Los Hermanos tem um monte de samba-emo aí, né? Mas tem O Terno, Cícero, o Castelo Branco. Tem uns malucos fazendo música popular brasileira moderna e isso meio que está lá, né? Acho que esta música tem o meu jeito de fazer essa melodia. Estamos pegando emprestado várias coisas da música brasileira, os acordes tortos, as convenções do pagode, que é uma referência pra todo mundo na banda. Essa música saiu no INVentário e quisemos tê-la no álbum porque acredito demais nela. Gosto muito do jeito que a gente realizou esta música.”
Guerra: “É uma música que tem uma força né? A gente se vê muito livre assim para fazer o que a gente acha que tem o nosso sentimento. Pô uma música linda dessa não podia ficar de fora nem a pau.”
Vocês se consideram uma banda de algum gênero? Se sentem como “rock”? Ou talvez não se sintam mais tão representados por esse rock?
Lucas: Ah, mano, a gente é uma banda de rock, né? Estou lá com uma guitarra, estou fazendo umas músicas, tenho meus amigos ali comigo. A gente se organiza como banda de rock, a gente ensaia como banda de rock, o nosso público se comporta como um público de rock. Mas rock é muito amplo, né?
“A gente é tão amplo quanto o rock se permite ser, né? Porque o rock vai comportar o Cazuza e também o Raimundos. Vai comportar também o Caetano Veloso, naquela fase da Banda Cê. O rock é feito de tudo deixa o velho e conservador bravo. A gente até tenta sair da definição de guitarra, baixo e bateria. E chegar em uma definição mais ampla. Não somos uma banda que propõe mega-estudos musicais, tipo um TCC, mas a gente propõe algumas coisas.”
Guerra: “Rock está mais na atitude do que na questão estética, né? Muita gente vê essa coisa estética do rock. Eu vejo, pra mim, como atitude. O Caetano Veloso é muito rock. A gente se sente livre disso assim.
Mais que um disco de feridas, é uma “ode para seguir sempre em frente”, né? É sobre resiliência – o que é muito a cara de 2021, depois de tudo o que rolou em 2020. Foi esse disco que fez vocês seguirem em frente quando o mercado da música estava congelado?
Guerra: A música me salvou em em 2020, em 2021, em todos os anos antes. Nunca foi fácil ser músico.
Lucas: Rapaz, é bem isso, meu galo! Uma ode de seguir em frente. A pandemia fodeu e pensamos no que fazer. Fui aprender a mexer nas coisas, na Twitch, fazer lives. Mas em 2012 também foi assim. Tavares tinha saído da banda, os fãs achando que a gente ia acabar. E tivemos que fazer um disco foda. Foram vários momentos assim ao longo da nossa carreira. Os shows estavam ficando mais vazios, mas o que íamos fazer? A gente nunca entendeu isso exatamente, como iríamos parar de tocar ou de falar com esse público? Mas a gente não para, né, cara?
“Éramos uma banda independente que assinou com uma grande gravadora. Viajamos o Brasil inteiro, voltamos, nos reformulamos. Fomos uma ex-banda grande ficando pequena de novo. Indo e voltando. São vários aprendizados. Só de pensar nisso, eu fico cansado. Mas a gente sempre se virou. A gente sempre, sempre, sempre, sempre seguiu em frente. Então, quando acontecem coisas foda, a gente precisa aprender a comemorar e agradecer.
Lucas Silveira
São mais de 20 anos de estrada. Nove discos. Sei que todo mundo tem percalços, mas vocês estão realmente vivendo de música. Qual era o sonho do adolescente Lucas? Era assim mesmo?
Lucas: “Ah, filhão, com certeza. Meu último sonho adolescente foi ter uma banda e hoje eu tenho. Mas eu não sou mais adolescente, aliás, daqui a pouco minha filha vai ser adolescente. Continuo viajando, continuamos bem, com saúde, fazendo som, tendo relevância, né? Temos hits de dez, quinze anos atrás, mas tendo relevância agora, com as pessoas levando nosso papo a sério.”
“Teve muita coisa ruim, né, cara? Muita chatice. Todo aquele bullying que a gente sofreu no auge do emo ali mexeu psicologicamente com todo mundo. Foi terrível comigo, mas sei lá, a gente sobreviveu, né? A banda sobreviveu às custas de muita terapia, também. Mas olha só: o que já rolou com a gente aqui? Das bandas que começaram com a gente, são poucas que estão aí de pé. Tem o Glória, que é um bastião também, mas muitas pararam, ou pararam e voltaram – e nada contra, tudo bem, é assim mesmo. Banda é um casamento muito treta. E a gente está aí, inteiro, de alguma maneira. Isso é muito foda.”
Lucas Silveira
A pergunta mais difícil de todas: é um disco para chorar dançando? Ou dançar chorando?
Lucas: Acho que envolve muitos fatores. Um disco para se chorar puto, de ficar puto de tanto chorar, é um disco para sossegar e olhar para dentro, para andar de carro com o som alto e dirigir sozinho. O começo é reto, direto, o lado B propõe um negócio diferente. Eu acho que é bem intenso. Ao mesmo tempo tem músicas que dá para tocar em festinhas Estou louco que as pessoas possam ouvir. Louco, louco, louco.
Guerra: “Acho que você vai começar a dançar e aí quando tiver aquela música que vai alfinetar você, aí vai rolar uma choradinha. Então, acho que é um disco para dançar chorando (risos).”
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Pedro Antunes
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