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Conheça MahalPita: o maior trunfo da música baiana e sua expertise em comunicação – iBahia

O produtor musical e artista transmídia MahalPita tem um dos trabalhos mais interessantes da música baiana hoje. Ele foi um dos produtores envolvidos no processo de transposição da rítmica do pagode para os beats digitais da música eletrônica. Com o coletivo Braunation e o duo A.MA.SSA, que formava junto com RDD, começou a circular no início da década de 2010 com a sonoridade de pagode eletrônico, que até então era uma grande novidade.

Depois desses primeiros projetos, vieram alguns anos de trabalho com o BaianaSystem. Mahal teve participação no show Duas Cidades, que marcou a fase de maior visibilidade nacional da banda, entre outras produções. Entre as parcerias de MahalPita com o BaianaSystem, os destaques são o remix de Playsom e os single Forasteiro e Invisível.

O artista ainda traz no currículo colaborações em produções autorais, remixes e releituras de artistas como Tom Zé, Ney Matogrosso, Margareth Menezes, Rico Dalasam, entre outros. Mais recentemente, em 2020, lançou o EP MANO*MAGO, em parceria com Giovani Cidreira; iniciou o projeto solo M8TADATAH com o experimento audiovisual Oração aos Pretos-moços e fez a produção musical da banda Afrocidade no EP Afrocidade na Pista, no single As Mina Para o Baile e no álbum Vivão, ainda não lançado.

Na entrevista para a coluna Pop Bahia, MahalPita fala sobre o processo e as motivações em trabalhar a música baiana a partir dos beats digitais; de experiências em apresentações internacionais; do caráter político da atual cena de música pop de Salvador; e defende a universalidade da música baiana pela expertise na comunicação através do corpo.
Confira:
Eu tenho essa coisa de trabalhar com um gênero eletrônico, com um jeito de fazer eletrônico, mas com um raciocínio orgânico. Minha família é musical, tem muitos musicistas, muitas pessoas relacionadas a música. Eu venho daquela coisa de grupos de pessoas tocando várias coisas diferentes pra se formar a música.
Quando eu fui pra música eletrônica, era um jeito de fazer só, porque eu vinha de bandas de colégio e é sempre uma coisa difícil, porque precisa ter a grana pra ensaiar e é oneroso. Nessa época, comecei a perceber que no mundo estava tendo uma movimentação de músicas feitas no computador e que existia uma percepção dessa música feita no computador pras músicas tradicionais dos próprios locais, como o kuduro, o reggaeton, a cumbia…Todos esses universos musicais, foram se tornando eletrônicos, criando suas versões eletrônicas.
Observando isso daqui de Salvador, a gente falou: cara, a música da Bahia é universal, tanto quanto todas essas outras. E aí, comecei a perceber padrões como o jeito da bacurinha e do repique, que se aproxima da fusa da música eletrônica [como no tempo 0:39 de Tô Te Querendo, feat entre Mulú, Luedji Luna, ÀTTØØXXÁ]. Então, foi de uma maneira muito orgânica…Fui percebendo essa tecnologia, essas possibilidades, essas ferramentas e vendo o que estava acontecendo na rua e dentro da minha família.
Penso muito que a música da Bahia, os músicos, musicistas e artistas daqui, são especialistas em comunicação – e é um dos maiores trunfos, a virtuose na comunicação. Quando digo isso, quero dizer que quando a gente está construindo uma música em Salvador, ela naturalmente já nasce global, já nasce universal, porque a constituição dessa sociedade, historicamente falando, se dá numa perspectiva global.
Se a gente for ver, cidades daqui da Bahia, como Santo Amaro e Cachoeira, já foram praticamente comparadas a uma Londres da vida em termos de importância internacional, comercial e culturalmente falando. A Bahia, então, já se coloca no lugar universal, global. A gente nasce com esse trunfo, com essa possibilidade de se comunicar mais amplamente.
Não acho que toda música da Bahia está pautada nisso, mas a música pop que estamos falando aqui está. Não é à toa que os shows mais explosivos, mais catárticos são de artistas da Bahia, porque a gente é especializado nesse tipo de comunicação. E não estou falando especificamente só no Carnaval, é o contato físico, visual, emotivo ali com aquelas pessoas.
Quando, por exemplo, eu fui tocar com o BaianaSystem no Festival de Roskilde, na Dinamarca, estava muito curioso pra saber como iam ler Forasteiro. Essa música minha e de Roberto Barreto, ao mesmo tempo que é instrumental, ali ao vivo não tem uma forma linear, não tem necessariamente uma coreografia, ela é meio estranha nesse sentido da forma – e era o intuito mesmo.

E começou todo mundo meio estatelado, assim, meio tentando entender o que que ia acontecer, mas depois daquela virada no início, parece que foi automaticamente, que fez o download, e pronto, sabe?! Porque não é uma comunicação com a mente, que poderia passar por processos políticos, sociais e até coloniais. É uma comunicação física, direto com o corpo. Não só com o corpo, óbvio, mas é uma comunicação principalmente corpórea. Então, as pessoas não precisam saber o que você está cantando pra entender. A música da Bahia tem esse trunfo, tem essa expertise, tem essa virtuose na comunicação.
Acho que passa a surtir efeito quando, de fato, se torna uma disputa de narrativas – e não só mais de espaços. Então, quando tem um “Fora Temer” tem um impacto, porque causa uma disputa de narrativa ao vivo, né?! Então, não é uma pessoa na internet, um post, é uma multidão gritando um desejo. Então, tanto causa efeito, que houve uma tentativa de represália com impedimento de sair no Carnaval de novo.
Mas eu acho que é um momento muito feliz, especialmente porque tange experiências decoloniais. Não está mais na música, está no próprio tipo de raciocínio. A gente percebe que há possibilidades de novas invenções que não estejam só no mundo binário, por exemplo. Hoje a gente já entende que o sagrado e o profano são duas coisas que se confundem em algum momento; a mesma coisa o entretenimento e a manifestação política. Então, a gente está trabalhando, volto a dizer, nesse aperfeiçoamento de comunicação pra que essa coisa vire uma voz uníssona, que esse sagrado-profano-político, venha com uma voz uníssona a essas expressões artísticas.
E já não tem mais isso: “ah, hoje sexta-feira eu vou pra um show porque eu quero esquecer da vida, quero desopilar”. Na minha casa é assim: as pessoas estão assistindo um jogo de futebol, discutindo política, falando de Big Brother, rezando… E é tudo ao mesmo tempo. Não é: “gente, agora todos nós vamos rezar; agora, todos nós vamos ver o Big Brother”.
Essa separação existe no mundo colonial, no mundo do repartido, né?! Isso não existe em África. Então, quando a gente começa a acessar essas experiências mais libertadoras de pensamento, a arte vai acompanhando e criando essa fluidez. E aí se torna nisso que eu acredito muito que não é nem coisa uma coisa, nem outra: é o entre!

Marcelo Argôlo*
Jornalista e pesquisador musical que acompanha o cenário musical baiano desde 2012. Mestre em Comunicação pela UFRB, ele é autor do livro Pop Negro SSA e mantém ainda o Instagram @popnegroba sobre a música pop negra da Bahia. 

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