Edvaldo Santana carrega na música ginga de boleiro e bronca da periferia – Rede Brasil Atual

Saído de São Miguel Paulista, populoso e nordestino bairro paulistano, compositor e cantor tem carreira marcada pela diversidade e independência
Publicado 23/06/2022 – 12h23
São Paulo – Houve um momento em que, talvez, Edvaldo Santana ficou entre a bola e o violão, entre o passe e a melodia. Escolheu o caminho da música, mas as notas do futebol continuaram presentes na trajetória desse paulistano de São Miguel Paulista, populoso bairro da zona leste de São Paulo. Onde muitos meninos queriam ser Antônio Marcos, por exemplo, cantor e galã de sucesso nos anos 1970, outro filho de São Miguel. Mas as influências de Edvaldo misturavam tudo: bolero, rock, blues, forró – como bom filho de nordestinos (o piauiense Félix e a pernambucana Judite), que povoaram o bairro marcado pelas crônicas de sua vida operária.
Assim, o jovem Edvaldo, nascido em agosto de 1955, frequentava tanto o futebol de várzea como as rodas musicais. Jogou em vários times e conta que era (ou é) bom de bola, ainda que um pouco esquentado em campo. “Na várzea tem que ser muito bom pra ficar entre os 10 (na linha, além do goleiro)”, afirma o atacante. Fez pelo menos cinco músicas que falam de futebol: O goleiro, O jogador, Dom, Terapia e Gelo no joelho. Tempo de correr descalço ou calçar chuteira no terrão. Homenageando personagens anônimos, como o goleiro Gilson, do E.C. Bahia de São Miguel, o amigo Meio Quilo ou o doutor Sócrates, ídolo do Corinthians.
Edvaldo Santana é santista, mas reconhece os talentos. Elogia o atual do time do Palmeiras, por exemplo, por combinar eficiência com futebol vistoso. Só que também critica o futebol atual. “Os meias têm que marcar os alas… Acho uma bosta. Futebol tá muito chato. Deram muita moral pra técnico”, diz, já emendando uma nova canção: “Tá todo mundo atrás da linha da bola/ Que a bola parada virou solução”.
Ao mesmo tempo, o menino ouvia de tudo: Altemar Dutra, Waldir Azevedo, Teixeirinha (cita Doce coração de mãe), música instrumental, lia também muita literatura de cordel. Uma mistura que, anos depois, iria desembocar no Movimento Popular de Arte (MPA) de São Miguel Paulista.
Pequeno, Edvaldo era “avião de cachaça” na zona: levava aguardente, disfarçada em garrafinhas de Guaraná, para as moças. E convivia com os operários da Nitroquímica. Ele mesmo trabalhou na Mimo, fábrica de brinquedos entre os bairros da Mooca e do Brás, de tradição operária, e participava de festivais. “Achava que tinha mais chance na música”, lembra. Também teve um primo, o Paixão, do PCB, que sempre aparecia com alguns livros “subversivos”.
Edvaldo lembra que o MPA nasce, em 1978, simultaneamente a movimentos que aconteciam no Brasil no ritmo da “abertura” política: ações contra a carestia, greves, reorganização do movimento sindical. Era também a procura de caminhos paralelos. Então, juntou-se a isso uma pesquisa de campo feita por dois antropólogos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Antonio Augusto Arantes e Tadeu Giglio.
“A gente já pensava isso. Estava acontecendo o Lira Paulistana, um monte de coisa. Foi a primeira vez que a gente se volta para o bairro. Por que um lugar com 500 mil habitantes não pode ter uma cultura? Foi feita um mostra na capela, e deu super certo, 4, 5 mil pessoas passaram por ali. Artes plásticas, poesia de varal, foi fantástico. Aí a gente começou a usar a praça.” O movimento cresceu e virou referência não só para a periferia. Ganhou disco e documentário, fez nascer um grupo de teatro. Depois dessa ebulição, em 1986 Edvaldo foi para o Rio de Janeiro e iniciou carreira solo.
A música também poderia ser um caminho para driblar algumas durezas da vida. É nessa hora da entrevista, durante uma tarde fria na zona leste, que os olhos de Edvaldo umedecem, na lembrança de um Nordeste árido e da perda de um irmão para a fome. Em contraste com outra lembrança, mais feliz, de infância ou juventude, ao descobrir no bairro de Itaquera uma abundância de pés de caqui.
Pausa na conversa, que teve a participação do repórter Gilberto Nascimento, que não foi bom de bola, mas se tornou um premiado jornalista investigativo. Edvaldo criou seu primeiro grupo, o Caaxió (com Fernando Teles, Luciano Bongo e Zé Bores), na primeira metade dos anos 1970. Ensaios no fim de semana, trabalho na fábrica para ajudar a família, saindo de casa ainda com tudo escuro na rua. Show no Teatro de Arena em 1974, músicas censuradas.
Ainda na época do Caaxió, o grupo ficou sabendo que Tom Zé precisava de uma banda para acompanhá-lo em Assis, no interior paulista. “Uma experiência completamente fora da nossa, quatro meses ensaiando…” Edvaldo largou a escola e a fábrica, e começou a efetivamente viver de música. Em 1975, após aquela temporada no Arena, eles foram contratados por uma gravadora e viraram Matéria Prima. O músico foi conhecendo outros criadores, de outras realidades, e futuros parceiros: Itamar Assumpção (“Um brother“), Paulo Leminski, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes.
“O Leminski eu saquei na força da poesia. Melhorei a minha forma de escrever. O Haroldo ia com a mulher nos shows, ficava na primeira fila”, lembra Edvaldo, que musicou o poema Galáxias. “A arte é dinâmica, ela exige às vezes que você seja rude consigo mesmo. A troca taí. Ele tem a força dele, eu tenho a minha.” De Arnaldo, sofreu ao receber uma letra. “Fiquei batalhando dois anos. Não conseguia achar a melodia.” Chacina foi gravada com Thaíde.
A visão social é constante na obra de Edvaldo Santana. Está presente, por exemplo, no recente single Eu quero é mais (Humanidade), gravado on-line em mais de uma cidade, devido à pandemia.
“A coisa ruim sempre esteve perto da gente, a gente tem que aprender a desviar. É possível a gente se humanizar mais, desde que tenha algumas coisas concreta, comida para todo mundo, casa pra todo mundo morar, escola, livros, liberdade. A humanidade quer farol aberto, que luz, sol, amor, a liberdade, prazer de viver. As dores vão estar sempre presentes, nós vamos assimilá-las e ficar melhor.”
Em Predicado, o poeta fala da solidão das pessoas conectadas em seus celulares. “Algumas coisas vão ficar, as pessoas se falam na China, na quebrada, em São Miguel. Tem que aprender a conviver. Não é por causa disso que a gente pode ficar tão insensível, tão odiento, tão nebuloso. Tem que usar isso a favor, relacionando bem sem fazer fofoca babaca, que parece aquele jornais sanguinários. As redes sociais são uma realidade, é lógico que tem muito picareta se aproveitando disso. Agora, quem sabe direitinho fazer as coisas, tem conhecimento, tarimba e tem trabalho, ideias, é um instrumento de potencialização de divulgação fantástico. A máquina tem que estar a nosso favor, foi a gente que criou, certo?”
Na semana em que um ex-ministro da Educação foi preso pela Polícia Federal, uma das canções de Edvaldo foi imediatamente lembrada. Retorno do Cangaço denuncia: “A grana que sumiu tá na casa do pastor”.
Outro exemplo da formação diversificada é a versão de Edvaldo para Love in Vain, de Robert Johnson, com gravação caseira e tradução para o português de Augusto de Campos. Um blues já gravado por Eric Clapton e pelos Rolling Stones, que o cantor paulistano diz ter tocado na nota certa: “Aquela nota está no meu ouvido”.
O primeiro álbum solo de Edvaldo Santana, Lobo Solitário, vai completar 30 anos em 2023. O mais recente é Só vou chegar mais tarde (2016). O autor passou a trilhar um caminho independente, que considera mais vantajoso. “Fui lançado por gravadora multinacional, conheci de dentro essa coisa de você estar ligado a um grupo. Essa coisa de ficar à mercê do mercado nunca me agradou”, diz, lembrando do primeiro disco, que considera “razoável”, ainda no Matéria Prima.
“Poderia ser melhor. Aquilo me marcou muito. Eu sou na minha vida assim mesmo, sempre fui assim. Sou meio indomável. Pude fazer as coisas como eu quis, lógico que eu tive ajuda de muita gente pra fazer isso, mas você está potencializando as suas ideias e aprendendo o tempo todo. Com isso tudo, eu consegui fazer um caminho meio paralelo, consegui uma forma de movimentar minha arte. Não estou interessado no carro do ano, na mulher mais bonita, no primeiro lugar da parada.” Como o futebol está sempre presente, antes do apito final ele recorre a uma máxima atribuída ao técnico e “filósofo” Gentil Cardoso para explicar a vantagem da independência: “Quem pede recebe, quem se desloca tem preferência”.

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