Excluídos de eventos, cantores católicos gays discutem promover show juntos – UOL

Lívia Venaglia
De Splash, em São Paulo
04/07/2022 04h00
O cantor Bruno Camurati não escondeu a sua tristeza ao anunciar, pelas redes sociais, que foi desconvidado de se apresentar no Halleluya, um festival de música cristã previsto para este mês de julho. Católico, ele revelou no último mês ser homossexual, o que vê como a causa para os cancelamentos das suas apresentações.
Um dos primeiros a se solidarizar com Camurati foi Gil Monteiro, outro músico influente nos meios católicos que revelou ser gay neste ano e também denunciou sofrer boicote em razão da sua orientação sexual. “Você tem os palcos do nosso coração”, escreveu o cantor na publicação do colega.

Em entrevista a Splash, Gil Monteiro conta que ele e Bruno Camurati já trocaram mensagens sobre o assunto. Os dois falaram da importância de espaços de música cristã que sejam abertos à população LGBTQIA+ e iniciaram conversas sobre realizar um show com essa proposta no segundo semestre deste ano.
“Estamos conversando sobre fazer um show, em outubro ou novembro, que seria em São Paulo e no Rio de Janeiro”, afirma. “Nós não vamos desistir, o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. A arte tem relevância social. Jesus ensinou que o Evangelho que não se vive não existe. Eu tenho que contar a minha história e cantar as minhas músicas para acolher quem se identificar com elas.”
Gil Monteiro conta que, desde que revelou em live ser gay e casado com um homem, recebeu muitas mensagens de apoio e relatos de fãs que se identificaram com a sua história. “Eu estou tentando, mas ainda não consegui responder todas as mensagens que recebi no WhatsApp e no Instagram. Muitas pessoas se dizendo representadas pelo que eu falei”, diz o cantor.
As críticas também vieram. “Eu sabia que teria haters, mas eu sigo os ensinamentos de Jesus. e me bate, eu dou a outra face. Se quer andar uma milha, eu vou andar duas. Esse é o ensinamento do Evangelho. Essas pessoas não seguem os ensinamentos de Jesus”.
Gil Monteiro não vê conflito entre ser um cristão católico e uma pessoa LGBT. Ao contrário. Após um longo processo de reflexão e oração, o cantor entende que a sua sexualidade é parte do plano de Deus para a sua vida.
Eu não sou um erro de Deus. Eu sou um acerto. Deus me criou intencionalmente como um homem gay
“Jesus Cristo disse assim: eu vim para que todos tenham vida, e vida plena, e vida em abundância. Alguém que não pode amar não vive em abundância”, afirma o cantor. Em entrevista ao jornal “Extra”, Gil contou que foi impedido de se apresentar na diocese onde mais trabalhava por ter feito algo “grave” — segundo ele, a sua sexualidade.
“Fui convidado a não tocar em um evento da diocese na qual mais trabalhei até hoje. Foi uma ordem superior porque era ‘grave’ o que sou e o que fiz. O que sou e fiz? Eu sou gay“, disse ao jornal.
A Splash, o cantor afirma que a Igreja Católica “não é um bloco monolítico” e que também recebeu apoio de padres e líderes religiosos. Monteiro conta ainda estar em contato com uma rede de católicos LGBTQIA+ e acompanhar discussões internas na Igreja, a exemplo do pleito de religiosos alemães para alterar o tratamento da temática dentro da formação católica.
Desconvidado de cantar no Halleluya, Bruno Camurati disse a Splash que a Comunidade Shalom, que organiza o evento, não deu esclarecimentos a ele sobre a razão do cancelamento da sua apresentação. “Só falaram que não aconteceria mais e que divulgariam outra programação, mas não quiseram dar o motivo”, contou. Procurada, a organização do evento não se manifestou.
A intrincada relação entre arte, religiosidade e diversidade sexual e de gênero entrou em pauta no mundo da música nos últimos dias. Além dos casos de Camurati e Gil, os rumos da carreira da cantora Priscilla Alcântara e os posicionamentos recentes de Bruna Karla repercutiram no segmento gospel.
Em entrevista ao canal da atriz Karina Bacchi, a cantora Bruna Karla contou ter se recusado a fazer uma apresentação no casamento de um amigo gay e disse que este estava condenado a “morte eterna” em razão da sua sexualidade.
A declaração provocou reações de outros artistas cristãos, como o ex-BBB Gil do Vigor e a própria Priscilla Alcântara, criticada por parte da comunidade gospel após ter migrado da música cristã para o pop, com parcerias com artistas como Gloria Groove e Emicida.
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Lucas Pasin

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