METALLICA em São Paulo – 10 de maio de 2022 – Roadie Crew

Por Luiz Tosi | Fotos: Roberto Sant’Anna
Como pode uma banda com um catálogo relativamente pequeno, lançamentos esporádicos e um show com produção modesta (se comparada a de outros grandes nomes como os U2 e Madonna da vida ou até mesmo de KISS e Iron Maiden), seguir lotando estádios brasileiros ao longo de uma década? Antes que eu seja cancelado logo no primeiro parágrafo, explico.
O Metallica foi meu primeiro show de heavy metal, lá nos idos de 1989, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Olha que, pelo local e tamanho da banda na época, o palco até que impressionava. Mas, alguns degraus e backdrops à parte, no fim, tudo se resumia mesmo a quatro caras famintos, de calças e camisetas pretas, sentando a mão nos instrumentos e se divertindo como se ainda estivessem na garagem ou num pequeno clube estrumbado de adolescentes. Naquela época, a banda já tinha oito anos e quatro álbuns, mas ainda mantinha a mesma essência de 1981, quando foi formada.
De lá para cá, foram inúmeros shows no Brasil. A banda voltou no seu ápice, em 1993; no fundo do poço (ou perto dele), em 1999; e então sumiu, até voltar, em 2010, para duas noites épicas em São Paulo e mais uma em Porto Alegre. Finalmente, o Metallica descobria o Brasil. Fomos visitados pela banda em 2010, 2011, 2013, 2014, 2015 e 2017 e já tínhamos um reencontro marcado para abril de 2020. Mas, aí o mundo parou e lá se vão cinco anos desde aquele show no Lollapalooza, parte da turnê do então recém lançado Hardwired… To Self-Destruct, (ainda) o último álbum de estúdio da banda. Dois anos e duas remarcações se passaram e, enfim, na noite de 10 de maio, Metallica e São Paulo se reencontraram – o giro pela América do Sul passou por Santiago (CHI), Buenos Aires (ARG) e desembarcou no Brasil com shows em Porto Alegre (RS) em 5 de maio e no dia 7 em Curitiba (PR) – a turnê segue para Belo Horizonte (MG) no dia 12.
Mas, voltando à pergunta inicial: como pode uma banda etc etc?
Muitos artistas montam shows, SHOWS – assim, com letras maiúsculas – que são verdadeiros espetáculos nos quais palco, iluminação, roteiro, figurino, setlist e até as falas entre as músicas derivam de um tema. Os citados KISS e Iron Maiden fazem isso com maestria e, assim como dezenas de outros artistas, lançam ou revisitam discos, produzem filmes, videogames, até inventam o seu próprio fim… Enfim, vivem cavando assunto para um novo show. Ver o Iron Maiden ao vivo é como ver o Cirque du Soleil, cada espetáculo é único e merece ser visto. Vê-los na “Legacy of The Beast Tour” é diferente de tê-los visto na “Maiden England World Tour”. Nada de errado com isso, pelo contrário, eu mesmo adoro uma superprodução, o ultra-ensaiado ou o mega-coreografado (Dream Theater e Alice Cooper estão entre minhas bandas favoritas na vida).

Mas o Metallica é diferente. O Metallica aposta todas suas fichas apenas na força das suas músicas. É simplesmente… “Metallica”. No máximo, adotam um nome genérico como “Metallica On Tour”, “Metallica Summer Tour” ou algo nessa linha. Tem até um certo desleixo. Salvo a “Live By Request”, na qual o público podia escolher o setlist (e São Paulo conseguiu pedir um Greatest Hits); a “WorldWired Tour”, que marcava o lançamento de Hardwired… To Self-Destruct e uma meia dúzia de shows em 2021 pelos EUA para celebrar os 30 anos de Black Album, o Metallica parece não arrumar “desculpas” para sair em tour. E é aí que está o encanto.
Se por um lado, eles não têm muitas novidades para contar, por outro, nenhuma banda usa tão bem seu catálogo para montar um show. As mudanças frequentes no setlist por si só, já são uma atração. Você nunca vai a um show do Metallica sabendo exatamente o que vai ouvir e em que ordem vai ouvir. Com apenas dez discos de estúdio (para muitos, são somente cinco) e umas cento e poucas músicas (como referência, o Megadeth tem 16 álbuns e mais de 160 faixas), parece que eles brincam de montar setlists. A abertura pode ser Whiplash? Pode. Mas também pode ser Fuel ou Creeping Death e, dependendo do humor dos caras, pode ser Hit The Lights. Se Porto Alegre viu Harvester of Sorrow e Blackened, Curitiba teve Fade To Black e Whiskey In The Jar. É uma loteria, parece que as músicas são sorteadas no backstage. Qual o cover do dia? Surpresa, mas quase sempre tem um. São apenas 17 músicas da discografia nunca tocadas ao vivo, todas do Load para frente.
Que outra banda tem cinco discos tão definitivos quanto a série “Kill-Ride-Master-Justice-Black” e segue rodiziando praticamente todas as suas faixas ao vivo até hoje? Que outra banda sai em turnê com 30, 40 músicas engatilhadas e decide na hora o que tocar? E aí vemos a força da discografia do Metallica. É qualidade sobre quantidade. É como aquele treinador que tem um elenco tão recheado de craques que não espera nenhum deles se cansar. No primeiro sinal de desgaste, troca por outro tão bom quanto e, quando ninguém espera, retorna com ele em outro jogo/show.

E então chegamos ao Morumbi. O estádio estava tão lotado que parecia que tinham vendido ingressos para cada uma das vezes em que esse show foi remarcado. Mas nada de reclamar, afinal, foram mais de dois anos de uma longa espera. A saudade era enorme, e que bom reencontrar essa atmosfera dos shows, rever os amigos. Saudade que começamos a matar com KISS, dez dias atrás, e ainda mataremos muito ao longo do ano. Obrigado, vacinas.
Eram 21h15 quando as luzes se apagaram e os telões mostraram a clássica cena do cemitério em “The Good, the Bad and the Ugly” (1966) ao som de The Ecstasy of Gold, do saudoso maestro e compositor italiano Ennio Morricone. A sequência de abertura já é um verdadeiro atropelamento: Whiplash e Ride The Lightning. Não tem como não se emocionar. De cara, já sentimos uma vibração diferente no ar. O período parado pela pandemia parece ter deixado a banda ainda mais afiada e com a faca nos dentes. O palco traçado pelo designer Dan Braun é simples, mas lindo, com cinco mega telões LED de alta definição de fundo, duas torres laterais com letras M e A estilizados com a fonte de Hardwired…, uma bateria, quatro amplificadores e os músicos próximos uns dos outros, criando uma atmosfera até certo ponto intimista e que mais parece um ensaio para 70 mil pessoas.

E vamos à loteria do setlist. Depois das citadas faixas de abertura, teve de tudo e para todos. Mas, antes, num breve serviço de utilidade pública, James alerta “Se você for ter um bebê, por favor, venha aqui ao lado”, em alusão à mulher que deu à luz durante a apresentação da banda em Curitiba. A terceira foi Fuel, com enormes labaredas de fogo esquentando todo o estádio e o público, despertando a maior reação dos fãs até então, o que mostra a força da fase Load-Reload. “Boa noite, Metallica Family”, diz James. “Espero que tenham estudado tudo direitinho, desde Kill em All”, completa, iniciando Seek & Destroy, a segunda da noite tirada do álbum de estreia, Kill ‘Em All. Eu não costumo ser viúva de ex-integrantes, mas confesso que sinto demais a falta dos backings do Jason Newsted nessa música. Enfim, a vida segue e o show também, agora com Holier Than Thou, uma das mais legais e menos batidas do Black Album, e muito bem executada. Artilharias de guerra antecipam a próxima: One. Essa me balança… o primeiro clipe, a primeira turnê aqui… aquele adolescente de 1989 agradece. Obrigado, obrigado.

Podia parar por aí que já estaria bom. Mas tem mais e James chama Sad But True. Como essa música funciona bem ao vivo. E aí vem a maior surpresa da noite. Alternando o polegar para cima e para baixo, James pergunta “St Anger?” Muitos riem, mas é verdade. E, para quem esperava pela faixa-título ou por Frantic, a surpresa foi ainda maior: Dirty Window. Lembra da loteria do setlist? Então, fomos premiados. E, apesar de esse álbum ser extremamente questionado, foi demais ver uma raridade com essa ao vivo e sem uma lata de Nescau no lugar da caixa da bateria. Outro momento não muito comum foi No Leaf Clover, uma das faixas inéditas do S&M, de 1999, com destaque para Kirk Hammett.

A performance dispensa comentários. James Hetfield segue sendo um dos maiores frontmans da história e se mostra em plena forma, arriscando até aqueles gritos mais agudos, que mostrava nos seus primeiros anos. Ah, mas algumas músicas estão mais lentas… o Kirk errou um solo… o Lars não é mais o mesmo… Quem se importa? Lars é o Deus. E Deus sabe o que faz. Amém.
Em seguida, duas dobradinhas de matar do coração. For Whom The Bells Toll emendada com Creeping Death, ambas do Ride The Lightning e Welcome Home (Sanitarium) colada em Master of Puppets, o maior dos hinos do thrash metal, faixa-título do maior dos álbuns do estilo. Tudo executado com uma paixão e entrega de fazer inveja a muitas bandas iniciantes. São vários os adjetivos para um show do Metallica: autêntico, cru, direto, orgânico, verdadeiro, espontâneo… Nada é muito ensaiado, pensado ou calculado, deixando espaço para o improviso, para o erro, enfim, para o aspecto humano da coisa. A banda transborda felicidade no palco, dando a sensação que ninguém curte mais essas músicas do que eles próprios.

Uma pequena pausa e vamos para a sequência final, que se inicia com Spit Out The Bone, de Hardiwerd… Interessante, considerando que em 2017 a banda tocou cinco faixas desse disco, e essa não foi uma delas. Vale lembrar que, oficialmente, esse show ainda é parte da “WorldWired Tour”. Nothing Else Matters provou que a química do Metallica com o público é um capítulo à parte. Aliás, é como se não houvesse separação entre banda e público. Num show do Metallica, é tudo uma coisa só. Aqui, 4 viram 70.004, todos tocando e cantando juntos. Emocionante, é como uma torcida reencontrando seu time do coração num estádio lotado. É uma volta para casa. Welcome Home.
E chegamos ao grand-finale. Todos em êxtase, mas ainda há tempo para mais uma. Claro, ela, a mãe de todos os hits do Metal. Exit, Light. E quando começa Enter Sandman, aí, meu amigo, é só festa. Não tem como não pular e cantar com 70 mil pessoas.
Sabe aquele parágrafo sobre 1989, lá no início do texto? Então, eu poderia simplesmente reescrevê-lo assim: Morumbi, 2022. O palco até que impressionava. Mas, alguns telões de LED e fogos à parte, no fim, tudo se resumia mesmo a quatro caras famintos, de calça e camisetas pretas (e uma jaqueta vermelha), sentando a mão nos instrumentos e se divertindo como se ainda estivessem na garagem ou num pequeno clube estrumbado de adolescentes. Já são 40 anos e 10 álbuns, e a banda mantém a mesma essência de 1981, quando foi formada.
No fim, visivelmente emocionados, os quatro permaneceram no palco por mais uns 10 minutos, brincando e conversando com o público, tirando fotos, e jogando palhetas e baquetas. A alegria era contagiante. Ao microfone, Lars lembrou do intervalo de cinco anos desde aquele último show em Interlagos e prometeu “Nos veremos em breve”, disse. Sim, Lars, nos vemos em 2023. 2024, 2025…

Quando o sistema de iluminação do Morumbi, agora com luzes de LED, se ascendeu, muitos ficaram parados, estáticos, meio que sem saber o que fazer. Depois, a massa começou a deixar o estádio, rumando em direção à Praça Roberto Gomes Pedrosa, Av. Giovani Gronchi, Av. Jules Rimet, Av. Padre Lebret e adjacências. É, a festa seguiu nas ruas…
Setlist – Metallica:
Whiplash
Ride the Lightning
Fuel
Seek & Destroy
Holier Than Thou
One
Sad but True
Dirty Window
No Leaf Clover
For Whom the Bell Tolls
Creeping Death
Welcome Home (Sanitarium)
Master of Puppets
Spit Out the Bone
Nothing Else Matters
Enter Sandman

– AS ABERTURAS –
Tendo a banda americana Greta Van Fleet como ‘special guest’ desde 25 de fevereiro, quando o Metallica tocou em Las Vegas na última data antes da passagem pela América do Sul, o evento ainda contou com abertura da banda brasileira Ego Kill Talent. Os experientes Jonathan Dörr (vocal, ex-Reação em Cadeia), Theo Van Der Loo (baixo e guitarra, ex-Sayowa), Jean Dolabella (bateria e guitarra, ex-Sepultura, Diesel/Udora), Raphael Miranda (bateria e baixo, ex-Sayowa) e Niper Boaventura (guitarra e baixo, ex- PullDown) mesclam um caldeirão de influências em seu som, como hard, metal, pop, grunge e indie. Além disso, têm o diferencial de serem multi-instrumentistas e estão acostumados a tocar em grandes eventos no Brasil (Rock in Rio e Lollapalooza, por exemplo) e no exterior. Semanas antes, o grupo havia feito uma espécie de ‘ensaio aberto’ no La Iglesia, em São Paulo. “Depois de dois anos sem fazer shows e com a confirmação de que a tour com o Metallica aconteceria esse ano, achamos que seria melhor fazer um show ‘warm-up’ para banda e equipe chegarem com as turbinas aquecidas. Viva a volta dos shows!”, comemorou Niper Boaventura.
Um fato interessante foi a declaração de Theo Van Der Loo ao Metro Jornal, dizendo que começou a tocar guitarra por causa de James Hetfield e que sua ligação com Raphael Miranda se deu justamente pelo fato de ambos curtirem Metallica. Portanto, ter a chance de fazer esta abertura foi a realização de mais um sonho – o EKT já abriu para nomes como Foo Fighters, Queens of the Stone Age e System of a Down. O set começou com NOW!, primeiro single de The Dance Between Extremes (2021), álbum gravado no estúdio do Foo Fighters. Com os trabalhos abertos e uma tremenda energia emanada na performance, veio Sublimated, seguida de We All, que saiu no primeiro álbum, Ego Kill Talent (2017). O set ainda contou com The Call, Heroes, Kings and Gods, Lifeporn e Last Ride.

Com uma década de estrada, a banda americana Greta Van Fleet novamente aportou no Brasil, desta vez em sua “Dreams in Gold Tour 2022”, promovendo o álbum The Battle at Garden’s Gate (2021), cuja imagem do portal que consta na capa serviu de cenário de fundo. Antes da turnê com o Metallica no Brasil, Josh Kiszka (vocal), Jake Kiszka (guitarra), Sam Kiszka (baixo e teclado) e Danny Wagner (bateria) primeiro passaram em show solo pelo Rio de Janeiro, onde se apresentaram em 3 de maio no Qualistage.

A vencedora do Grammy em 2019 entrou no palco com seu visual meio hippie chique e bem anos 70, com os irmãos da linha de frente descalços, mas mandando um belo rock’n’roll, que é o que interessava. Com dois EPs e dois álbuns na bagagem, abriram o set com Built by Nations, faixa do mais recente trabalho. A faixa-título do EP Black Smoke Rising (2017) e as recentes Caravel e My Way, Soon vieram na sequência. Lover, Leaver (Taker, Believer), terceiro single do debut Anthem of the Peaceful Army (2018) e que conquistou o topo na parada Mainstream Rock da Billboard, escancarou o lado Led Zeppelin do quarteto.

A nova The Weight of Dreams e Highway Tune encerraram o show. Mesmo não sendo unanimidade entre o público, muitos agitaram e mostraram que conheciam as músicas. Por sinal, quem só citam o Led como referência do Greta, poderia incluir The Small Faces, Humble Pie e até Slade, quando Josh Kiszka não soa como Robert Plant ou abusa dos falsetes e vocais agudos, mandando drives na linha Noddy Holder.
A curiosidade para quem ainda não os tinha visto era saber se entregariam um bom show, se era uma boa formação ao vivo. E, sim, faz um belo espetáculo, demonstra total confiança, tem uma performance coesa e pareceu estar muito adaptada a grandes eventos como este – leia-se: não tremeram na base. Uma grande noite de rock do início ao fim…

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