Na estrada com Chitãozinho e Xororó, antes da invasão da música sertaneja – UOL Confere

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano
Colunista do UOL
02/06/2022 17h26
Atualizado em 3.6.2022, às 16h30:
Acabei de receber agora uma mensagem por áudio do Chitãozinho, que reproduzo abaixo:

“Esse cara, acho que o nome dele é Ricardo Kotscho, se não me engano, eu lembro dessa viagem com a gente no ônibus por Santa Catarina. Tudo é perfeito o que ele escreveu. É tudo verdadeiro, nossa, ele é um cara que levantou a bandeira da música sertaneja quando as pessoas da imprensa viravam a cara para nós. Eu lembrei de tudo exatamente como foi a nossa viagem. Tudo o que ele falou é verdadeiro. Fiquei muito feliz de ver esta matéria, eu agradeço muito.”
***
“Quem te agradece sou eu, Chitão, pela forma como vocês me receberam, mais de 40 anos atrás, sem saber quem eu era. Ali, naquela viagem, eu percebi que os irmãos Lima iriam longe porque o sucesso não tirou a humildade de vocês. Que venham outros 50 anos para nós… Forte abraço.
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“Chitão, toma cuidado com o que você fala pro repórter que ele tá anotando tudo na súmula…”, alerta Xororó, que permanecia quase mudo durante a viagem.
No tempo em que os sertanejos ainda não tinham aviões e helicópteros, começo dos anos 80 do século passado, a dupla cruzava o interior de Santa Catarina junto com os músicos num “ônibus próprio”, adesivado com seus nomes, o que então era um luxo de poucos artistas, enquanto Chitãozinho me contava a história da vida deles, desde que saíram de Astorga, cidadezinha do interior do Paraná.
“Nosso pai era toreiro”, conta o irmão mais velho da dupla, e eu tomando nota no meu caderninho. “Toureiro?”, perguntei, surpreso. “Mas tem isso no Brasil?”.
“Não, seu repórter. É toreiro. Meu pai puxava toras de madeira do mato para a cidade. Trabalhava com caminhão”.
Xororó riu da minha ignorância. Era a primeira vez que entrevistava uma dupla sertaneja, de quem eu nunca havia ouvido falar, assim como deve ter sido uma das primeiras entrevistas dadas por Chitãozinho a um grande jornal (no caso, o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, onde eu trabalhava).
Era um outro mundo que estávamos descobrindo juntos naquela excursão pioneira, o sucesso do cantor caipira e o jejuno repórter da cidade.
Logo na primeira cidade em que paramos (não me lembro o nome, estou escrevendo de memória, porque não guardei as anotações da reportagem), percebi que estava assistindo ao vivo ao surgimento de um novo fenômeno musical. Ginásios de esportes superlotados, centenas de meninas na porta, gritando seus nomes e tentando agarrar os cantores, depois pedindo bis sem fim, como nos shows das tardes de domingo de Roberto Carlos no antigo Teatro Record.
Mais espantado com meu entusiasmo diante do que havia visto na viagem, ficou o editor do famoso Caderno B do JB, meu velho amigo Zuenir Ventura, que acaba de completar 91 anos, ainda em plena atividade.
“Tá louco? Quer publicar matéria de dupla sertaneja no Caderno B? Nunca. Aqui é um jornal sério”.
Não só queria publicar como pedi a capa do caderno. Sem chance. Esperei a folga do Zuenir no fim de semana seguinte e convenci o subeditor, Paulo Adário, meu colega de faculdade, um caipira, a publicar a matéria. Deu capa.
Zuenir queria matar os dois, mas continuamos bons amigos até hoje. Foi a primeira invasão da música sertaneja nas capitais e, algum tempo depois, Chitãozinho e Xororó, a bordo do megassucesso “Fio de Cabelo”, para tristeza de Zuenir, estavam se apresentando no sagrado Canecão carioca, templo da MPB.
Mais ou menos na mesma época, a célebre dupla Milionário e Zé Rico voltava de uma vitoriosa excursão por várias cidades da China (sim, da China!), e consegui emplacar outra reportagem exclusiva no Caderno B. O grande sucesso da carreira deles, “Estrada da Vida”, tocava sem parar no garimpo de Serra Pelada quando estive lá.
Muitos anos depois, quando Pedro Bial me convidou para dar uma entrevista no programa dele, a produtora me perguntou qual a música que tinha marcado minha vida, para tocar na abertura da entrevista, eu logo me lembrei desta, que inspira garimpeiros, jornalistas e vagabundos em geral até hoje.
Nesta longa estrada da vida
Vou correndo e não posso parar
Na esperança de ser campeão
Alcançando o primeiro lugar
Difícil também foi convencer os editores do caderno Ilustrada, da Folha, a publicar minha matéria sobre os 50 anos da dupla Tonico e Tinoco, os precursores da música caipira (ainda não chamada de sertaneja), nos grandes centros do país. Tive que falar até com o dono do jornal, o meu bom amigo, seu Frias, que sabia quem eles eram, e a matéria acabou saindo com destaque, como eles mereciam.
Música sertaneja nunca foi bem vista nas grandes redações de jornal. Em todas elas por onde passei, os colegas me repassavam os discos que ganhavam das gravadoras e minhas filhas já não aguentavam mais ouvir estas músicas nos fins de semana no nosso sítio.
Pois, nestas voltas que a vida dá, quando foi fazer o roteiro do filme “Dois Filhos de Francisco”, do Breno Silveira, que morreu há pouco, minha filha caçula Carolina se lembrou deles, e passou dias ouvindo esses velhos discos ou fitas, escolhendo músicas para a trilha sonora. O filme, sobre a vida da família de Zezé di Camargo e Luciano, foi um campeão de bilheteria e passou incontáveis vezes na Globo, que resistiu muito tempo para abrir espaço a este gênero musical, pois era considerado brega, e depois virou até tema de muitas novelas, bem antes de “Pantanal”.
Me lembro de tudo isso agora porque a minha paixão pela verdadeira música caipira ou sertaneja vem muito antes de se falar em Jair Bolsonaro e verbas do orçamento secreto para promover shows de sertanejos em pequenas cidades do interior, onde falta de um tudo, para políticos se promoverem com dinheiro público.
Chitãozinho e Xororó viviam só da bilheteria, como era quando começaram se apresentando em circos do interior do Paraná, e não gostavam de ficar dando bis de graça em suas apresentações.
O sábio Chitãozinho já dizia: “Tem que deixar um gostinho de quero mais para eles voltarem no nosso próximo show”.
Parece que deu certo. Está fazendo 50 anos que o público sempre volta para ver e ouvir os dois irmãos de Astorga. Vale a pena ver o especial que o Pedro Bial fez para celebrar esta data. Tem no Globoplay. Fico feliz por ter acompanhado o início desta trajetória vitoriosa.
Jornalista não vive só de más notícias.
Vida que segue.

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Ricardo Kotscho
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