No Dia do Rock, um papo com quem entende: Paulo Miklos, Di Ferrero e Dinho Ouro Preto – GQ Brasil

No Dia do Rock, a GQ Brasil traz uma conversa especial com cantores da música brasileira que representam muito bem o gênero (Foto: Paulo Miklos: José de Holanda / Di Ferrero: Bruno Trindade / Dinho Ouro Preto: Divulgação)
Nirvana para Di Ferrero, Led Zeppelin para Dinho Ouro Preto e Beatles para Paulo Miklos. Até mesmo os ídolos do rock carregam suas próprias bagagens, referências e inspirações que traduzem de forma única e singular, através de letras, acordes e melodias, o espírito do rock n’ roll.
O rock sempre foi mais do que apenas música. Tido como um estilo de vida, uma lente de como enxergar o mundo, o gênero é também sinônimo de resistência. Seja ao conservadorismo ou as outras milhares de influências musicais que disputam views e visibilidade na internet – já se foi o tempo que as paradas de rádio mediam popularidade.
Na verdade, é que já faz alguns anos que a discussão sobre o “rock ainda estar vivo ou não” acontece, e normalmente, quase sempre partindo da mesma lógica de sobrevivência. No entanto, é possível dizer que o rock tenha ultrapassado esse nível de debate.
Só o fato do rock ter a sua própria data comemorativa no mundo, é uma das provas de que ele não vive apenas de saudosismo. E esse foi o nosso ponto de partida para convidar Di Ferrero, Dinho Ouro Preto e Paulo Mikloes ao debate neste Dia do Rock (13).
Antes de trazer o bate-papo com esses caras, que definitivamente entendem sobre o assunto, vale explicar de onde e quando a data surgiu. Foi no dia 13 de julho de 1985 que o festival mundial Live Aid, reuniu milhares de estrelas do rock em Londres e nos Estados Unidos, com o intuito de arrecadar fundos para o fim da fome na Etiópia – e de novo, não era só música.
Freddy Mercury fez apresentação memorável no Live Aid em 1985, na Wembley Arena, em Londres. O festival aconteceu em simultâneo no Estádio JFK, na Filadélfia, Estados Unidos. (Foto: Getty Images)
Um grito pela transformação, uma vontade de mudança. O rock n’ roll dialoga com a sociedade através dessas mensagens. Por Que Censurar O Amor?, por exemplo, é o título de uma das canções presentes no novo álbum de Paulo Miklos, Do Amor Não Vai Sobrar Ninguém, lançado no fim de maio.
Na mesma linha, Di Ferrero cita a música Fake Song, do seu recém-lançado álbum solo Uma Bad Uma Farra, para explicar sua visão do atual cenário do rock brasileiro. “Muitos têm opinião e poucos tem atitude (…) O rock vai além das guitarras. Está na linguagem, atitude, estilo, na presença”.
Talvez menor do que foi nos anos 80 e 90, na visão de Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial – banda que fez e continua fazendo história no rock brasileiro, prestes a celebrar o legado no projeto Capital Inicial 4.0 – o rock ainda mobiliza muita gente.
Leia a seguir a entrevista com os músicos na íntegra:
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GQ: O que é o rock n’ roll para você?
Paulo Miklos: É liberdade! Amor livre. Contra toda opressão e covardia do estado. É o antídoto à sociedade conservadora e careta.
Dinho Ouro Preto: Essa é uma pergunta difícil. Sou quase tentado a me apropriar de uma resposta atribuída ao Miles Davis: se você tem que perguntar, você nunca saberá. Mas, vamos lá, vou tentar responder. Acredito que é uma combinação de elementos. É multimídia por excelência. Músicas, letras e roupas. É a trilha sonora da juventude urbana. É a plataforma através da qual sucessivas gerações expressaram seu hedonismo, suas expectativas, suas frustrações, sua esperança e seu desejo por mudança. Mas foi também em alguns momentos puro escapismo. É uma forma de expressão bastante fluida que não conhece fronteiras e mobiliza multidões.
Di Ferrero: Pra mim, o rock é uma forma de expressão, um grito, uma melodia, um sentimento íntimo, um protesto ou qualquer coisa que tenha que ser externalizado. Sem pensar no que vão achar ou se vão entender, muitas vezes ele também é o caminho e o recado pra alguém, ou algo assim. Às vezes são devaneios sem julgamentos ou preocupações. São essas atitudes que tomamos quando estamos mergulhados nas profundezas do mundo que vivemos e precisamos respirar.
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GQ: Qual é a sua primeira lembrança com o rock?
Paulo Miklos:  Assisti ao espetáculo Jesus Cristo Superstar com meu amigos aos 14 anos de idade. Foi no Bexiga em São Paulo, perto da praça Roosevelt. Nos voltamos dançando pra casa!
Dinho Ouro Preto: Aos doze anos, andando de skate e jogando bola pelas superquadras de Brasília ouvindo Led Zeppelin e Jimi Hendrix.
Di Ferrero: Quando tinha 13 anos e deixei a igreja que fazia parte fiquei desiludido com a vida, com as crenças e com pessoas que se diziam meus amigos. Estava com a cabeça bagunçada e fui acolhido pelas bandas, pelo skate, pelos shows e por todo universo que envolvia o rock.
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GQ: Se pudesse citar um disco ou música de rock que te marcou, qual seria?
Paulo Miklos: Acho que foi Help, dos Beatles, o primeiro compacto simples que eu ganhei. Aprendi a cantar de cor, mesmo não sabendo absolutamente nada do que se tratava. Mas a energia do rock estava lá, para transformar minha vida.
Dinho Ouro Preto: Talvez o Led Zeppelin IV. Eu ouvi tanto que minha mãe já sabia as letras de cór. Mas, na medida que o tempo vai passando, sempre há algum disco ou alguma banda fazendo a trilha sonora da minha vida. Já foram os Ramones com It’s Alive, já foi o Nirvana com o Nevermind, o Oasis com (Whats the Story) Morning Glory, ou agora com os Red Hot Chili Peppers e o Californication. Eu me sinto assim, essa música é parte de quem eu sou. Rolling Stones, U2, Queen, Legião Urbana, Titãs, Cure, Clash, Paralamas, Foo Fighters e uma infinidade de outros artistas fazem parte de mim.
Di Ferrero: Aos 13 anos ouvi Nevermind, do Nirvana, arrepiei no mesmo instante e quis me levantar e mostrar para os meus amigos na mesma hora. O Chorão e o Charlie Brown, O CPM22, por exemplo foram alguns dos meus mentores nas gig’s pelo Brasil. Sempre fazíamos shows juntos e eles sempre aconselhavam, protegiam e curtiam nosso som na época em que várias pessoas criticavam.
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GQ: Como é ser um artista que representa o rock no Brasil em 2022?
Paulo Miklos: Continuo com a mesma energia. A mesma indignação. A mesma alegria em encontrar os fãs de uma carreira de tantos sucessos. E por isso, continuo produzindo com a mesma paixão. As pessoas são muito nostálgicas mas eu moro no agora!
Dinho Ouro Preto: É um prazer. Eu gosto do que eu faço. Acredito que a minha geração ajudou a consolidar o rock no país. Contribuímos para criar o rock popular brasileiro. Acho que não se pode falar da música popular brasileira sem mencionar o rock. Várias canções, tanto do Capital, quanto de outras bandas, fazem parte do cancioneiro popular brasileiro. Elas (as músicas) têm ressonância nacional e atravessaram gerações. É um privilégio e um prazer poder viver de música.
Di Ferrero: Não parei pra pensar ainda, mas uma coisa é certa eu vivo como eu quero, alimento meu sonho e nunca parei de fazer o que eu mais amo na vida: tocar! Isso eu tento passar pra galera que participa do meu mundo e que cantam as letras das minhas músicas comigo nos shows.
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GQ: Na sua opinião, qual é o tamanho do rock brasileiro nos dias de hoje?
Paulo Miklos: Na mídia ou no coração dos fãs? Em alguma garagem, em algum lugar, de alguma cidade, ele está renascendo. Acho que estão matando o rock há muito tempo. E vão continuar tentando em vão (risos).
Dinho Ouro Preto: O rock é menor do que já foi, mas temos um público fiel. Ao longo desses anos, foi criada uma infraestrutura em volta do rock. Há rádios, jornalistas, blogs e sites especializados. Além das grandes e das pequenas casas de shows, existem inúmeros festivais que se tornaram cada vez mais frequentes. O rock hoje é menor do que ele foi nos anos 80 e 90, mas continua mobilizando muita gente.
Di Ferrero: “Muitos têm opinião e poucos tem atitude”. Essa frase da minha música Fake Song do meu álbum Uma Bad Uma Farra diz muito pra mim. Não tem como medir o tamanho do rock. Se você perceber o rock está inserido e se mistura com maioria dos estilos músicas, trap, reggae, rap, surf music, pop, etc. O rock vai além das guitarras. Está na linguagem, atitude, estilo, na presença, no mosh, nas rodas punks nos festivais de outros estilos músicas e por aí vai. Mesmo você não querendo, direta ou indiretamente, no cenário musical atual ele está bem presente de alguma forma.
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GQ: O que você falaria para as pessoas que dizem que o “rock está morto”? Concorda com essa afirmação?
Paulo Miklos: O rock é revolta e descoberta. É espírito jovem e inconformismo. Quando sufocarem uma nova geração mergulhando-a no fascismo e na obediência cega, é aí que o rock vai ressurgir indestrutível!
Dinho Ouro Preto: Eu ouço que o rock morreu há mais de trinta anos. Eu acho que não. Os shows continuam cheios. Os discos continuam sendo lançados e principalmente sempre há sempre gente nova aparecendo, como o Måneskin, por exemplo.
Di Ferrero: Se você analisar a “árvore genealógica” do rock é a maior da música. Dentro do gênero existe um universo de estilos e segmentos musicais. Geralmente quem diz isso são os próprios artistas. Talvez tentando manter algum status quo de um passado na expectativa de repetir algum feito, ou quando os lançamentos não saem como o esperado, enfim, é mais fácil pôr a culpa no rock. Mas a real é que tudo muda o tempo inteiro no mundo da música. Quando você ouvir alguém falando o “rock está morto” saiba que essa frase diz muito mais sobre a própria pessoa do que sobre o rock em si. Quem sabe até alguma desilusão com o próprio rock, falar isso também é uma forma de expressão.
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GQ: Consegue imaginar a sua vida sem a influência do rock? Como ela seria?
Paulo Miklos: Eu seria um flautista erudito, de jazz, de choro, do samba, cantor de modinhas, de lundus, de ópera. Eu seria um músico de vanguarda, cantando Odair José. Mas, espera aí! Eu sou tudo isso também (risos).
Dinho Ouro Preto: Para dar uma resposta rápida e curta: não. Nada do que nos aconteceu foi planejado. Toda essa história e esses longos anos na estrada foi uma surpresa. Foi tudo inesperado. É possível que parte da explicação da nossa longevidade seja justamente a falta de pretensão, a espontaneidade. Minha vida poderia ter tomando outro rumo, eu sei, é possível, mas a trilha sonora teria sido a mesma.
Di Ferrero: Não sei como seria, só sei que seria bem menos interessante.

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