Pedro Ernesto: mais que um narrador, o vovô do rádio é cozinheiro, agricultor, cantor e os olhos de quem não vê – ESPN.com.br

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Especial “Pedro Ernesto, o locutor vovô” é o terceiro documentário da série da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil. Disponível no StarPlus e, em 27 de julho, na ESPN (1:33)
Pedro Ernesto Denardin é o mestre da escola gaúcha de locutores de futebol. O Vovô, apelido que ganhou na infância, é o personagem principal do terceiro documentário da série especial dos canais ESPN sobre os 100 anos de rádio no Brasil.
Apesar de ele ser famoso e bastante comentado na cidade, encontrar o maior nome da locução esportiva da atualidade no Rio Grande do Sul não é tão fácil como parece.
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Em nossa chegada à capital gaúcha, Pedro nos enviou, via WhatsApp, o endereço da própria residência, onde teríamos o primeiro encontro e o início das gravações.
O problema é que ele se esqueceu que a nossa equipe é de São Paulo, assim a chance de errarmos o endereço seria iminente, como aconteceu.
Fomos parar no subúrbio de Viamão, do lado de Porto Alegre, numa quebrada, onde pensamos: “Nossa, Pedro deve estar mal financeiramente”. Também passou por nossas cabeças: “Será que ele é tipo Zeca Pagodinho, tão simples que resolveu morar perto de comunidade?”.
Nada disso.
Ao passar o nome da rua, Pedro não informou o bairro e, guiando pelos caminhos traçados pelo GPS, fomos parar em Viamão em vez de chegar a um dos bairros mais nobres de Porto Alegre.
Esclarecida a confusão, como não havia mais tempo para chegar à casa de Pedro Ernesto, decidimos seguir diretamente para a Arena do Grêmio, onde o locutor narraria o confronto do time da casa contra o Ypiranga de Erechim, jogo da última rodada da fase de classificação do Gaúchão.
De cara não deu tempo para apresentações, pois, quando chegamos à Arena, Pedro já estava abrindo a jornada esportiva da Rádio Gaúcha e a partida estava prestes a começar.
Foi o tempo de armamos os equipamentos e começar a gravar.
Impressionante ver um gigante do rádio em ação, ainda mais em seu habitat de trabalho, na cabine de um moderno estádio de futebol.
O local nos impressionou pelo tamanho, pelo luxo e pelo conforto. Grande até para os padrões das cabines dos estádios em São Paulo, onde temos os novos Allianz Parque e NeoQuímica Arena, e sem comparação com a do rival Internacional, no Beira-Rio, minúscula e quase insalubre.
Mas tanto conforto tem também um preço. A cabine da Rádio Gaúcha fica praticamente no último andar do estádio. A distância para o campo de jogo é de praticamente 50 metros, o que dificulta a identificação precisa dos jogadores e de alguns lances, ainda mais para um senhor de 72 anos.
É diferente ver in loco, tanto um jogo como uma narração esportiva.
A concentração de Pedro Ernesto e sua equipe é total.
Ainda mais em um dia que aconteceu o que os gaúchos chamam de “duplex”. Isto é, a narração simultânea de um jogo do Grêmio e outro do Inter, que enfrentava no mesmo dia e no mesmo horário o Guarany de Bagé, em Bagé, narrado por Gustavo Manhago.
Cada locutor narrar um lance, com prioridade no microfone, é claro, para situações de gol e informações exclusivas, alternando durante os 90 minutos a voz no comando.
É uma forma que as emissoras gaúchas encontraram para não desagradar gremistas e colorados, afinal, em um Estado dividido por duas paixões é preciso ter atenção aos dois lados.
Segundo Pedro Ernesto Denardin, o narrador número 1 da emissora, funciona, e a Rádio Gaúcha tem 80% da audiência em todo o estado.
Descalço durante a transmissão, como se fosse o cantor Juca Chaves, Pedro soltou a voz na vitória de 2 a 0 do Grêmio, com direito a narração de um gol olímpico de Jaminton Campaz.
Pedro Ernesto têm muitas narrações que merecem destaque. Por exemplo, a famosa Batalha dos Aflitos e o gol de Rafael Sóbis “rasgando a camisa” do São Paulo na final da Libertadores de 2006.
Mas gafes acontecem.
Acompanhamos uma da qual o narrador gaúcho se saiu muito bem.
Antes do início do jogo na Arena do Grêmio, embasado pela informação da assessoria do clube tricolor, o locutor pediu que Alex Bagé falasse de Darli João da Silva, o Limonada, ex-massagista gremista, em uma homenagem póstuma. Houve até um minuto de silêncio no estádio.
Mas, depois que o jogo já tinha encerrado, chegou a informação que Limonada estava vivo e bem de saúde, além de chateado pelo anúncio da morte dele.
Pedro e a equipe não conseguiram entender como a assessoria do Grêmio pôde errar uma informação dessa natureza, mas lidou com a situação formidavelmente.
“Vou te beber limão, com uma vodca Valença, vou te botar e vou te tomar, Limonada. Um beijo para ti e perdão, né? A gente recebeu a informação [do Grêmio]. Fazer o quê!?”.
Pedro Ernesto Denardin têm 50 anos de profissão e perdeu quase todos os domingos de folga irradiando. O que significa que não esteve com a família, mais ou menos, 2.400 domingos.
Por aquelas coincidências da vida, tivemos o privilégio de estar com ele em um domingo de folga. Foi em Xangri-lá, no litoral gaúcho, à cerca de 120 km da capital Porto Alegre, onde ele e a esposa psicanalista Jussara tem uma casa que usam como refúgio da loucura do dia a dia.
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Foi em um dia chuvoso que fomos recebidos carinhosamente pelo casal, que nos recebeu com uma mesa recheada de pães, doces tradicionais e café. Ficamos agradecidos, mas não estávamos ali como visitas para comer, e sim para contar a trajetória do cara mais badalado do rádio gaúcho.
Metido a cozinheiro, Pedro começou a preparar uma moqueca mista de peixe e camarão que logo deixou aquele cheiro maravilhoso por toda a casa, onde estávamos fechados, por causa da chuva.
Com o ouvido colado no rádio, Pedro foi preparando aquele suculento almoço de domingo, cuja receita ele confessou que aprendera dias antes com um amigo.
Com um olho no peixe e outro no gato, Pedro sugeriu gravarmos a entrevista após preparar todos os ingredientes. Foram duas horas de um papo muito rico, franco e divertido.
Foi um mergulho na vida de um ídolo do rádio, que desde criança carrega o apelido de Vovô porque era muito branquinho e banguelo (estava trocando os dentes de leite pelos permanentes).
Pedro não escondeu nada. Falou dos desafetos, como o técnico Luiz Felipe Scolari e o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon, hoje comentaristas dos canais ESPN. Relembrou as grandes narrações (como a Batalha dos Aflitos) e os erros (“Sóbis rasga a camisa do São Paulo”). Ainda falou sobre outras carreiras que quase seguiu antes do rádio, como carroceiro, taxista e açougueiro.
Pedro até deixou algumas pistas sobre o time do coração: Grêmio ou Internacional?
Foram horas agradáveis, de muito conhecimento, que nos deixaram tão encantados com as histórias do Vovô locutor que até esquecemos da moqueca diante do conteúdo que adquirimos.
Foi um domingo inesquecível com Pedro Ernesto Denardin, em Xangri-lá.
Pedro é apaixonado por música gaúcha tradicional.
Canta no chuveiro, canta em casa e leva o gosto como se também fosse uma profissão, com muita disciplina e dedicação.
Toda a semana, ele reúne os amigos músicos no sítio que tem no subúrbio de Porto Alegre para ensaiar. As noites contam ainda com outra tradição gaúcha: churrasco e polenta.
Já faz alguns anos que o locutor divide a agenda no rádio com apresentações por todo estado e até fora, como Santa Catarina, Paraná, entre outras, que querem ver de perto o talento do Vovô. Também tem discos e CDs gravados, além de uma legião de fãs.
Pedro é daqueles que se transformam com o microfone nas mãos e diante de uma câmera. Dá até a impressão que ele incorpora uma entidade completamente diferente do sujeito do dia a dia.
Tivemos a oportunidade de acompanhar isso de perto. Primeiro, o ensaio. Depois um show na cidade de Nova Santa Rita, na região metropolitana de Porto Alegre, onde ele se transformou.
Entre uma música e outra, muitas brincadeiras e provocações para dupla GreNal.
Entrevistamos músicos profissionais, como Edson Dutra, líder de “Os Serranos”, que fizeram uma música para Pedro (“O Narrador do Rio Grande”), e o grupo de rock “Nenhum de Nós”. Eles falaram sobre rádio, sobre o futebol gaúcho e, claro, sobre o locutor e cantor.
Entre uma brincadeira ou outra, como gozar que o locutor é um pouco desafinado, todos concordam que ele tem talento e principalmente coragem para arriscar a fama e a credibilidade construída no jornalismo subindo aos palcos e soltando a voz como cantor.
Como curiosidade descobrimos que Pedro Ernesto, tão ligado as raízes gaúchas, mas ao contrário de 99% dos conterrâneos, não toma chimarrão. Também nunca andou a cavalo. Manias que não o impedem de ser uma das grandes vozes que não deixam a rica cultura do estado morrer.
Especial “Pedro Ernesto, o locutor vovô” é o terceiro documentário da série da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil. Disponível no StarPlus e, em 27 de julho, na ESPN
Pedro é uma celebridade no Rio Grande do Sul, o que testemunhamos de perto durante um dia de gravação na linda e revitalizada Usina do Gasômetro, onde Pedro era parado a cada segundo por um fã ávido por uma foto ou um autógrafo.
Naquele dia, combinamos que Pedro faria uma surpresa para um fã, que o imita tão bem quanto o admira. A diferença é que o imitador de Pedro é cego.
O nome dele é Vinícius Mohr. Ele veio de Candelária, a 180 km de Porto Alegre, sem saber de nada.
Foi trazido por familiares e amigos com a justificativa de que gravaria uma entrevista para a ESPN sobre Pedro Ernesto Denardin. Vínícius estava em êxtase.
Ele têm 39 anos e é deficiente visual desde os primeiros anos de vida. É um trabalhador de família humilde. Faz cerca de quatro mil caixas de sapatos por dia numa fábrica da região.
Nas horas vagas imita Pedro como poucos.
Sem saber que Pedro estava ali, Vinícius contou sua história de luta, mas sempre com a alegria de quem enxerga os jogos do seu Internacional pelos olhos do narrador do Rio Grande do Sul.
Foi um momento emocionante e épico do documentário que emocionou a todos, inclusive o personagem central do programa especial, Pedro Ernesto Denardin.
Dias depois ele relatou o episódio na Rádio Gaúcha e convidou Vinícius para passar um dia com eles, dentro da emissora, ouvindo as pessoas que são os olhos dele de perto.
“Pedro Ernesto, o locutor vovô” estreia na ESPN em 27 de julho, às 23h55 (de Brasília).
Ao todo, são cinco especiais feitos pela ESPN em homenagem aos 100 anos de rádio no Brasil. O primeiro deles, “Miltons e suas paixões, com Milton Neves”, já está disponível no StarPlus e será exibido a 1h (de Brasília) de 26 de julho na ESPN.
Os outros são “José Silvério, o Menino Chato”, “Osmar Santos e os irmãos do rádio” e “Coisas de Garotinho, com José Carlos Araújo”. Todos serão exibidos na última semana de julho na ESPN e estão disponíveis no Star+.

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