Rock anos 80, Blitz, Evandro Mesquita e o som que abalou toda uma geração – NeoFeed

Em entrevista ao NeoFeed, o cantor, compositor e ator Evandro Mesquita relembra a explosão de sua banda Blitz em 1982, símbolo do renascimento do gênero musical que completa 40 anos
Capa do LP “As aventuras da Blitz”, de 1982, um marco na história da música brasileira
Desde abril, nada menos que 16 eventos musicais em quatro capitais – Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília – têm reunido as bandas mais icônicas do rock nacional dos anos de 1980. Como Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Blitz, Biquini Cavadão, Roupa Nova, Camisa de Vênus, Plebe Rude, Titãs, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Paulinho Mosca, Paulo Ricardo, Barão Vermelho e Ira! A série termina neste domingo, 5 de junho, no CCBB da Capital Federal.
Tudo para celebrar os 40 anos do início da quarta e mais longa fase do rock brasileiro, conhecida como BRock. Entre paradas não tão longas, o gênero foi inaugurado no país em 1958 pelos irmãos Celly e Tony Campello. Depois, ficou fortalecido pela jovem guarda de Roberto e Erasmo Carlos e passou por uma afirmação pelo talento icônico de nomes como Raul Seixas e Rita Lee nos anos de 1970.
Quem viveu a década de 1980 deve concordar que tudo começou em agosto de 1982, quando as rádios começaram a tocar “Você não soube me amar” (Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso?) , cantada por Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, acompanhados de Lobão na bateria – aquele mesmo de “Me chama”.
Era a banda Blitz que, desde janeiro daquele ano, se apresentava sob a lona do hoje mítico Circo Voador, instalado no trecho entre Ipanema e Copacabana e que depois mudaria para a Lapa.
Precisou sair o compacto e um clipe no programa Fantástico, da Rede Globo, para deflagrar o fenômeno musical em todo país daquele grupo despretensioso e contagiante. Sua primeira formação trazia Evandro Mesquita (voz e guitarra), Fernanda Abreu (backing vocal), Marcia Bulcão (backing vocal), Ricardo Barreto (guitarra), Antônio Pedro Fortuna (baixo), Billy Forghieri (teclados) e Lobão (bateria).
O nome Blitz veio da sugestão de Lobão, inspirado pela quantidade de vezes que o distraído Evandro era parado pela polícia e multado por infração de trânsito. As divergências artísticas entre Lobão e Evandro, no entanto, eram constantes e pioraram. Até que o primeiro saiu dias depois do lançamento do primeiro compacto. Ele foi substituído por Juba na bateria.
Em três meses, o compacto vendeu 100 mil cópias e aquela canção diferente, meio cantada, meio falada, cheia de swing, gírias e de alegria virou febre e embalava festinhas em todos os cantos do Brasil. Não apenas a música, como algumas expressões da letra caíram no gosto do público jovem e viraram expressões populares, como “OK, você venceu, batata frita!” e “Nada, nada, nada!”
Em setembro daquele ano, foi lançado o LP “As Aventuras da Blitz”, que se tornou um dos presentes mais comprados no Natal. Outras três faixas fariam bastante sucesso: “Mais uma de amor” (geme geme), “O beijo da Mulher-aranha” e “O romance da universitária otária”.
Com o tempo, o álbum seria um marco. Passou a ser considerado tão relevante na história da música brasileira que ficou na 48ª posição no ranking dos 100 maiores discos brasileiros de todos os tempos em eleição da revista Rolling Stone Brasil, em dezembro de 2009.
Depois de três álbuns elogiados pela crítica, em março de 1986, a Blitz se desfez. Em meio a conflitos internos, todos os membros concluíram e entenderam que era hora de parar. Não aguentaram a superexposição e a demanda exagerada de shows, que reuniam mais de 50 mil pessoas em estádios e parques de exposições. Chegaram a anunciar o disco de despedida que nunca saiu, intitulado “O Último da Blitz”.
A inclusão da música “Mais uma de amor” (geme geme) como tema da novela “A Viagem”, em 1994, fez com que quase todos os ex-integrantes se reunissem novamente. Eram eles Evandro Mesquita, Juba, Ricardo Barreto, Antônio Pedro, Billy Forghieri e a estreante Hannah Lima nos vocais ao lado da veterana Márcia Bulcão. Ficaram juntos por cinco anos e gravaram os LPs “Blitz ao vivo” (1994) e “Línguas” (1997), por duas gravadoras diferentes.
Com apenas dois nomes da formação original, Evandro Mesquita e Billy Forghieri, a banda voltou aos palcos e aos estúdios em 2006 e continua até hoje. Lançou mais dois discos, “Blitz – Ao Vivo” e a “Cores e Eskute Blitz”. Em 2017, uma alegria inesperada: o álbum “Aventuras II” foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Alternativo em Língua Portuguesa.
Aos 40 anos, a banda não fala em parar. Nem Evandro, que completa 70 anos este ano, com rosto de vinte a menos. Descolado, irreverente e gentil, ele conversou com o NeoFeed sobre a data que celebra com os shows por todo Brasil desde janeiro e pediu respeito para a importância que a Blitz teve e tem na história da música brasileira.
Você veio do grupo de Teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, que marcou a década de 1970 e revelou nomes como Regina Casé e Luís Fernando Guimarães, mas apareceu mesmo para o grande público como cantor de rock. Como aconteceu isso?
Sei lá, acho que era vontade de fazer música, de cantar, que me levou a mudar de rumo. Eu não tinha muitas referências para me inspirar como músico e cantor porque nada que tocava nas rádios ou nas TVs era parecido com o que a gente gostava de ouvir e fazia com a Blitz (antes de gravar o primeiro disco). Claro que éramos fãs de Roberto, Erasmo, da Tropicália, dos Mutantes, dos Novos Baianos. Mas as rádios e as gravadoras não davam espaço para nada novo, tipo uma banda de rock. Esse gênero, aliás, era um problema, falavam.
Vocês não tinham um mercado musical favorável a voos mais desafiadores como fazer um disco, foi isso?
Exato. Havia umas coisas que não nos davam perspectivas ou criavam expectativas em nós. As gravadoras passavam por uma crise, vendiam menos, a inflação apertava. Ao tocar no underground carioca, no entanto, vimos que havia um público interessado em nós, os amigos gostavam bastante e nos apoiaram a buscar uma gravadora. E começou assim, a Blitz foi, aos poucos, furando esse bloqueio.
Até gravar um disco…
Até gravar um disco e vender mais de 1,5 milhão de um compacto supersimples, com “Você não soube me amar”. E, no outro lado, eu falava apenas “Nada, nada, nada” o tempo todo. Era um disco de só uma música, portanto, numa época de crise do mercado fonográfico. Mesmo assim vendeu bastante, nos abriu as portas e nos permitiu fazer nosso primeiro LP logo em seguida.
O caminho foi longo até o primeiro compacto?
Levou de um ano e meio a dois anos. Demorou bastante, sim, mas a gente passou a acreditar que podia funcionar, a turma curtia bastante, aplaudia o que fazíamos e seguimos em frente. E não havia nada parecido no meio independente onde a gente tocava como as nossas músicas. Chegamos como uma novidade leve e divertida, que teve ótima aceitação. O Brasil inteiro adorou o que fizemos.
“Não havia nada parecido no meio independente onde a gente tocava como as nossas músicas. Chegamos como uma novidade leve e divertida, que teve ótima aceitação. O Brasil inteiro adorou o que fizemos”
Você já cantava no teatro?
Já cantava, sim. Na peça “Trate-me leão”, do Asdrubal Trouxe o Trombone (com direção de Hamilton Vaz Pereira), tinha uma música que a gente cantava, era a cena de um acampamento, rolava um violão, uma gaita. Eu também fazia músicas com alguns amigos em Saquarema, nos luaus que a gente gostava de curtir em Petrópolis ou em Friburgo. Eu sentia que as pessoas adoravam nosso som e isso foi dando força para montarmos uma banda. Até que veio o Circo Voador e assumimos mais essa parte de virar um grupo mesmo.
E a busca por gravadora, vocês conseguiram uma na primeira tentativa?
A coisa andou, viramos banda e as expectativas cresceram no Circo Voador. Todo mundo perguntava “Cadê o disco?”. E foi assim até eu chegar na EMI-Odeon com uma fita cassete mal gravada ao vivo de um show que fizemos no Circo e apresentar para o produtor Mariozinho Rocha e ele bancar a gravação do primeiro compacto em um estúdio.
Tanto nas letras como na capa dos dois primeiros compactos e do LP, percebe-se uma forte influência das histórias em quadrinhos na primeira fase da Blitz. Na capa, vocês reverenciam o modelo dos gibis de terror dos anos de 1950, inclusive com o código de censura. Era isso mesmo que vocês queriam?
Sem dúvida. A gente gostava bastante de quadrinhos. Acho que comecei a entender o mundo através das revistas em quadrinhos, que li bastante desde os primeiros anos, na infância. Era uma linguagem mais imediata, direta, as histórias tinham humor, aventura, ação. Primeiro, líamos os personagens mais infantis e juvenis. Até que, depois, na década de 1970, surgiu no Brasil o underground, que veio lá de fora. Eu venerava Robert Crumb e seus personagens; os Freak Brothers, de Gilbert Shelton. Lia muito (a revista alternava) Grilo (1971-1974, proibida pela ditadura militar). Curtia muito Mr. Natural, de Crumb. Antes, amava as diabruras dos Sobrinhos do Capitão, de Asterix. Terror nunca foi muito a minha praia. Os demais (gêneros) eu lia bastante.
Essa relação da Blitz com a linguagem dos gibis foi uma coisa sua ou a banda toda curtia também?
Todo mundo curtia. Tanto que distribuímos um gibi e um álbum de figurinhas com o primeiro LP, fizemos o pacote completo (risos). Acho que foi uma coisa da minha geração gostar de quadrinhos. Eu adorava e foi até natural que me influenciasse tanto, compreende? O mesmo valia para Gringo Cardia e Luiz Stein, que foi a dupla de designers responsável pela produção da marca e da capa dos nossos primeiros discos. Eles evidenciaram isso. Então, a gente tinha essa sintonia.
E as músicas, nota-se isso também, as historinhas, as aventuras, os personagens descolados, engraçados, não é?
Sim, as músicas falavam de aventuras, situações de perigo etc. Então, combinava essa coisa da linguagem dos quadrinhos da capa e do encarte com as letras. Eram historinhas que a gente contava a partir dessa referência que levamos para todo o disco, como um conceito.
Vocês tinham ideia da importância histórica do que estavam fazendo? Afinal, hoje, quando se fala em 40 anos do rock nacional, o marco inicial é a Blitz.
No começo, a gente achava que só os amigos da praia e a família iam curtir. Acreditamos nisso por um bom tempo, até irmos para o Circo Voador e mudamos de rota. Mesmo assim, o sucesso era algo distante para nós ainda depois do primeiro compacto ser feito. Tanto que tinha uma vinheta numa das músicas do disco “Eu só ando a mil” que não passava de uma brincadeira nesse sentido: “Vocês ouvirão o som que abalará toda uma geração, o som que marcará uma época”. Tudo era uma grande piada, claro, mas acabou por se tornar uma profecia (risos).
O rock brasileiro para o qual vocês abriram a porta, seguiu uma década com uma pegada mais politizada, com as bandas de Brasília (Legião Urbana e Capital Inicial) e São Paulo (RPM e Plebe Rude). Isso deixou a irreverência da Blitz um pouco de lado quando se conta a história daquele movimento musical?
Não. A Blitz sempre falou de política, mas de uma maneira própria, não de forma óbvia e panfletária. Nossa atitude política era elevar essa rapaziada da praia que tinha uma atitude, um estilo de vida próprio, fabricava prancha de surfe, fazia quiosques de comida natural, montava fábrica de calção, de roupas. Isso tudo era uma atitude política alternativa, não óbvia, da cultura do bem-estar, de oportunidade, da força que o underground queria mostrar. De revelar a sua cara, enfim. Então, essa visão de que só funciona se falar o obvio de política é errada, é burra para mim.
“Nossa atitude política era elevar essa rapaziada da praia que tinha uma atitude, um estilo de vida próprio. Essa visão de que só funciona se falar o obvio de política é errada, é burra para mim.”
Não impediu que a censura viesse para cima de vocês…
Sim, sim, tivemos duas faixas do primeiro LP que foram censuradas (“Ela Quer Morar Comigo na Lua e Cruel” e “Cruel Esquizofrenético Blues”), mantidas no disco e riscadas de prego por nós em protesto. Mas a gente até ficou orgulhoso disso porque os censores ouviram nosso disco. Dissemos: “Caramba, incomodamos os caras!” Isso só acontecia com Caetano, Gil, Chico. Com isso, concluímos que a gente estava num bom caminho também. (risos)
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