Tecnologias de última geração mudam a vida de brasileiros com deficiência – Revista Galileu

O pianista e maestro João Carlos Martins, de 81 anos, usa órteses nas mãos. (Foto:  Luís França)
Todas as manhãs, o pianista João Carlos Martins, de 81 anos, ensaia de três a quatro horas em seu apartamento em São Paulo. No dia 19 de novembro de 2022, ele volta a se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York. Além de reger a orquestra, vai executar três peças: duas dos alemães Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Robert Schumann (1810-1856) e um tributo ao argentino Alberto Ginastera (1916-1983). “Será a primeira vez, depois de 22 anos, que volto a tocar com os dez dedos”, conta Martins a GALILEU. “Meu último concerto com as duas mãos foi em 1998, quando toquei com a Royal Philharmonic Orchestra, em Londres”.
O músico chegou a anunciar publicamente sua despedida do piano. Foi no programa Fantástico, da TV Globo, em 17 de fevereiro de 2019. Uma série de infortúnios o obrigaram a tocar apenas com os polegares. Em 1958, foi diagnosticado com distonia focal, um distúrbio neurológico que provoca contrações involuntárias nas mãos e, no caso de músicos, impossibilita a execução de seus instrumentos.
Já em 1965, durante uma partida de futebol no Central Park, uma queda atingiu o nervo ulnar, na altura do cotovelo, e provocou a atrofia de três dedos da mão esquerda. Trinta anos depois, ao reagir a um assalto na Bulgária, Martins levou uma barra de ferro na cabeça que lhe rendeu uma lesão cerebral. Ao longo da carreira, foi submetido a 24 cirurgias.
Nos áureos tempos, o exímio pianista chegava a tocar 21 notas por segundo; nos últimos anos, porém, “tocava uma nota em 21 segundos”. Quem assistiu ao Fantástico naquela noite foi o designer industrial Ubiratan Bizarro Costa. Nas horas livres, ele gosta de criar artefatos de design inclusivo como um exoesqueleto mecânico para pessoas com deficiência ou uma scooter adaptada sobre um skate elétrico para paraplégicos. De sua casa em Sumaré (SP), decidiu bolar um jeito de ajudar Martins a cancelar a aposentadoria. Depois de assistir a incontáveis vídeos do pianista no YouTube, chegou ao protótipo de uma luva extensora biônica.
Feita de borracha sintética, hastes de aço flexíveis e placa de fibra de carbono, a órtese mantém abertos os dedos do pianista, flexionados por causa da distonia. “As hastes funcionam como molas”, explica Costa. “Quando o maestro pressiona as teclas para baixo, as hastes ‘empurram’ os dedos para cima”. Em cinco meses, o designer desenhou as luvas, imprimiu-as em uma impressora 3D e as apresentou ao maestro. “A primeira versão parecia uma luva de boxe”, ri Martins. “Os dedos não encostavam nas teclas. Impossível tocar”.
Costa fez ajustes e deu o novo modelo de presente ao pianista. De tanto tocar, ele quebrou a segunda versão. O designer, então, trocou o plástico por aço. E, a pedido do músico, imprimiu na cor preta. De ajuste em ajuste, a luva está em sua sexta versão. “Não chego perto do virtuoso que já fui um dia. Mas posso tocar peças importantes de Bach excepcionalmente bem”, avalia o maestro, que conclui, citando um dos aforismos preferidos de seu pai, José da Silva Martins: “O impossível só existe no dicionário dos tolos”.
A MENINA “BIÔNICA”
Se o pianista João Carlos Martins pediu que suas luvas fossem pretas, Maria Beattriz Santana da Costa, de 4 anos, escolheu a cor rosa. Apaixonada por princesas e unicórnios, ela tinha apenas 2 anos quando contraiu uma infecção bacteriana e chegou a passar 40 dias na UTI de um hospital em Brasília. Sobreviveu ao choque séptico, mas, por causa da necrose, os médicos tiveram que amputar suas mãos e três dedos do pé esquerdo. Em outubro do ano passado, ganhou um par de próteses fabricadas em impressora 3D por alunos do Centro Universitário IESB, no Distrito Federal.
Maria Beattriz Costa perdeu as mãos aos 2 anos de idade (Foto: Divulgação)
A prótese pode ser feita com plástico PLA, de origem vegetal, ou ABS, derivado do petróleo. Cada peça custa cerca de R$ 150, leva 30 horas para ficar pronta e reproduz o movimento de agarrar. Há modelos feitos de plástico que brilha no escuro e até os que imitam pedra, ferro ou madeira. “Cabos e elásticos funcionam como os tendões da mão”, explica o arquiteto Renan Balzani, professor do IESB. “Quando a Maria Beattriz flexiona o braço, ela fecha a mão. Quando relaxa, abre”.
Uma das vantagens da prótese tridimensional é seu baixo custo. Outros modelos mais arrojados podem chegar a R$ 300 mil, já com a reabilitação incluída. No entanto, apesar de ser leve, barata e resistente, tem suas limitações: não pode carregar materiais pesados nem pegar objetos pequenos. “Não é frágil, mas requer cuidados. Andar de bicicleta, por exemplo, não é recomendado. Afinal, não é feita de adamantium”, brinca Balzani, numa referência ao metal quase indestrutível do qual são feitas as garras do Wolverine, o X- -Men mais famoso da Marvel.
A prótese de Maria Beattriz é do tipo mecânica. Seus movimentos são limitados: os dedos se movem juntos, não separados. O espectro é amplo e vai de modelos mais simples, como a estética, que não executa movimentos, aos mais complexos, como a mioelétrica, controlada por sensores afixados no membro remanescente. Quem explica é Maria Elizete Kunkel, professora do curso de engenharia biomédica do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em São José dos Campos (SP). “Próteses mioelétricas permitem ao usuário movimentos finos e de grande precisão. No entanto, seu custo é alto e a reabilitação, demorada”.
Maria Beattriz é uma das muitas beneficiadas pelo e-NABLE Brasil. Criado em 2012 por Ivan Owen, um designer de Seattle, nos Estados Unidos, o projeto recorre a impressoras 3D de baixo custo para desenhar, imprimir, montar e distribuir próteses de membros superiores, acionadas pelo punho ou pelo cotovelo. O público-alvo são crianças e adultos que nasceram com má formação em dedos, mãos e braços ou sofreram amputação devido a guerras, doenças ou acidentes. Detalhe: membros inferiores não são impressos em 3D. “Não suportariam o peso do corpo”, justifica Kunkel.
As próteses convencionais podem ser feitas de alumínio ou mesmo titânio. No passado, já foram de madeira e couro. Hoje, o material mais usado é a fibra de carbono — são leves, flexíveis e resistentes. O fisioterapeuta Anderson Nolé, diretor da BioniCenter, aponta outro ganho: a redução do gasto energético. “Quem usa prótese se cansa mais ao caminhar. Com os modelos em fibra de carbono, o desgaste é menor, porque ela absorve a energia e a ‘devolve’ sob a forma de impulso. Funciona como uma mola”, diz.
Situada também em São José dos Campos, a BioniCenter reabilita cerca de 120 pacientes por ano. Sempre que um deles lhe pergunta qual é a prótese ideal, Nolé responde: “Depende”. “Jamais vou indicar uma de última geração para um paciente com idade avançada ou grau de atividade baixo. Nem sempre o modelo mais caro é o melhor”.
MUITO ALÉM DOS LIMITES
De vez em sempre, a influenciadora digital Paola Antonini, de 27 anos, encontra crianças pelas ruas de Belo Horizonte ou nos lugares que visita pelo mundo afora. As reações delas, ao verem sua “perninha brilhante”, são sempre inusitadas: “Pai, o que é aquilo?”, cochicham algumas; “Mãe, por que a perna dela é assim?”, indagam outras. Brincalhona, Antonini costuma variar as respostas: de “Estou virando um robô” a “Sou uma mulher biônica”.
Com 2,6 milhões de seguidores no Instagram, ela nunca escondeu de ninguém que, por causa de um atropelamento em 2014, usa prótese na perna esquerda. Pelo contrário: está sempre usando novas versões coloridas e brilhantes do aparelho. “Próteses resgatam a autoestima do usuário”, afirma o fisioterapeuta Fabrício Daniel de Lima, diretor do Instituto de Prótese e Órtese (IPO), na capital mineira. “Cada vez mais, um número maior de amputados quer exibir suas próteses e personalizá-las com desenhos de super-heróis ou escudos de times de futebol”.
Em dezembro de 2014, Paola e seu então namorado, Arthur, decidiram passar o Réveillon em Búzios, no Rio de Janeiro. Na manhã do dia 27, os dois arrumavam suas bagagens no porta-malas do carro do rapaz, que estava estacionado, quando uma motorista alcoolizada perdeu o controle da direção e bateu na traseira do veículo.
Arthur sofreu ferimentos leves, mas Paola teve a perna esquerda esmagada. Entrou no centro cirúrgico às nove da manhã e saiu de lá às onze da noite. Depois de 14 horas de operação, os médicos decidiram amputar sua perna um pouco abaixo do joelho. “Perdi uma perna, mas ganhei asas”, relata a autora de Perdi uma parte de mim e renasci, lançado em dezembro de 2021 pela Globo Livros. “Conquistei todos os meus maiores sonhos. Nada disso teria acontecido se, desde o início, eu não tivesse decidido encarar aquela notícia com otimismo”
Paola Antonini, de 27 anos, quer aprender algo novo todos os dias. (Foto: Reprodução Instagram)
Desde então, Paola Antonini fez um pacto consigo mesma: tentaria algo novo todos os dias. Em suas redes sociais, gosta de postar fotos suas jogando tênis, praticando surfe ou esquiando na neve. O trecho de uma canção da banda canadense Nickelback, If today was your last day, tatuado em seu braço esquerdo, resume seu novo estilo de vida: “Live like you’ll never live it twice” (“Viva como se você nunca fosse viver outra vez”, em livre tradução). “Sempre gostei de me desafiar e ir além dos meus limites”, afirma a mineira que, em 2020, fundou um instituto que leva seu nome e se propõe a ajudar pessoas com deficiência física por meio da doação de próteses, órteses e outros acessórios.
“Conquistei todos os meus maiores sonhos. Nada disso teria acontecido se eu não tivesse decidido encarar aquela notícia com otimismo”
CIBORGUES ESPORTIVOS
Não há registros oficiais de quantos usuários de próteses e órteses existem hoje no Brasil. Três dos mais famosos são o cantor Roberto Carlos, que teve parte da perna direita amputada depois de um acidente na linha do trem em 29 de junho de 1947; o ex-goleiro da Chapecoense Jakson Follmann, um dos sobreviventes da queda de um avião na madrugada de 29 de novembro de 2016; e o atleta paralímpico Alan Fonteles, medalha de ouro em Londres 2012 e de prata em Pequim 2008 e Rio 2016.
O universo paralímpico, a propósito, é o tema de Biônicos, o primeiro filme brasileiro de sci-fi da Netflix. “O que aconteceria se, no futuro, atletas paralímpicos saltassem mais alto, corressem mais rápido ou batessem mais forte do que os atletas olímpicos?”, provoca o diretor Afonso Poyart.
A ficção não está tão distante assim da realidade. Em 2015, no Mundial de Atletismo Paralímpico em Doha, no Catar, o alemão Markus Rehm, que usa uma prótese no lugar da perna direita, conquistou a marca de 8,40m no salto em distância. Se competisse em Olimpíadas, teria levado o ouro. A título de comparação, o britânico Greg Rutherford ganhou a prova em Londres 2012 com 8,31m.
Enquanto o longa da Netflix não estreia (a previsão é 2023), o público pode assistir ao curta Protesys no YouTube. Misto de documentário com ficção, conta a história do atleta paralímpico Flavio Reitz, que é convidado por uma startup fictícia para participar de um experimento que transforma amputados em ciborgues.
No curta, cientistas implantam um microchip em seu córtex motor e ele passa a controlar os movimentos da prótese com a força da mente. “Se algo parecido acontecesse comigo, não pensaria duas vezes. Adoraria ser o precursor de algo que pode mudar a vida de muitos”, garante Reitz, quinto lugar no salto em altura em Londres 2012, que perdeu a perna esquerda em 2002 por causa de um câncer no fêmur.
ÓRGÃOS ARTIFICIAIS
Na década de 1970, uma série de TV fez muito sucesso no Brasil: O homem de seis milhões de dólares (1974-1978). Baseada no livro Cyborg (1972), escrito por Martin Caidin, contava a história do piloto Steve Austin (Lee Majors), que sofre um acidente de avião e recebe três próteses biônicas: duas pernas, o braço direito e o olho esquerdo. Era capaz, entre outras proezas sobre-humanas, de correr a uma velocidade estimada em 90 km/h.
Inverossimilhanças à parte, O homem de seis milhões de dólares durou cinco temporadas, ganhou três telefilmes (1987, 1989 e 1994) e gerou um spin-off, A mulher biônica (1976-1978). Vítima de um acidente de paraquedas, a tenista Jaime Sommers (Lindsay Wagner) recebe três implantes: duas pernas, um braço e um ouvido.
Na vida real, a modelo Brenda Costa, de 39 anos, também tem um “ouvido biônico” para chamar de seu. Não, ela não é capaz de ouvir sons inaudíveis, de diferentes frequências e a longas distâncias. Graças a um implante coclear, a carioca consegue façanhas ainda mais extraordinárias, como ouvir o barulho do vento, o choro dos filhos (Antônia e Gabriel, hoje com 13 e 6 anos, respectivamente) e a voz do pai, Marcos, exclamando: “Que felicidade!”. “A adaptação foi difícil”, reconhece a modelo. “Você precisa treinar seu cérebro para distinguir sons que nunca ouviu na vida”. E dá um exemplo: “Levei um susto na primeira vez que ouvi meu xixi. Não sabia que era tão barulhento!”, diverte-se.
A modelo Brenda Costa usa um “ouvido biônico” para escutar. (Foto: Diego Kung)
A surdez de Brenda é do tipo congênita, ou seja, de nascença. Nunca estudou em escola especial nem aprendeu a linguagem de sinais. Em compensação, faz leitura labial em cinco idiomas: português, inglês, francês, italiano e espanhol. No colégio, sofreu bullying de alguns colegas. Um deles chegou a pegar seu aparelho auditivo.
Brenda, então, aproveitou um momento de descuido do garoto e, num movimento rápido, arrancou seus óculos. “Então, como é a vida sem óculos? Ruim, né?”, perguntou, na frente de todos. “Vamos fazer um trato: você larga do meu pé e eu devolvo seus óculos. Feito?”. Daquele dia em diante, nunca mais ninguém mexeu com ela no colégio.
Em 2006, aos 24 anos, a modelo se submeteu a um implante coclear — cóclea é a região do ouvido que capta sons. Popularmente 62 conhecido como “ouvido biônico”, é um dispositivo eletrônico que capta o som do ambiente e o transforma em impulso elétrico. Daí, o nervo auditivo é estimulado e transmite informações para o cérebro. “Quanto menor o tempo de surdez, melhores serão os resultados”, explica o médico Ricardo Bento, professor de otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Só no Brasil, existem cerca de 8 mil usuários. Desses, 3 mil foram operados no Hospital das Clínicas da FMUSP. “O usuário pode levar uma vida praticamente normal. O único problema é na hora de passar pelo detector de metais”, avisa Bento.
O mundo das próteses vai além das pernas que andam de skate, das mãos que tocam cavaquinho ou dos ouvidos que escutam os sons da natureza. Enquanto a bioimpressão 3D de órgãos humanos não se torna realidade, corações artificiais, feitos de plástico e titânio, já batem no peito de pessoas com insuficiência cardíaca avançada — algumas delas brasileiras.
Os modelos mais modernos pesam, em média, 900 gramas (três vezes mais que um normal) e, para bombear o sangue, precisam de uma bateria recarregável de lítio. “O paciente não pode ficar muito tempo distante de uma fonte de energia elétrica, senão a bateria descarrega e o coração para de funcionar”, alerta o cirurgião cardíaco Fábio Jatene, professor de cirurgia cardiovascular da FMUSP.
“A adaptação foi difícil (…) Você precisa treinar seu cérebro para distinguir sons que nunca ouviu””
Esses aparelhos são indicados principalmente em duas situações. A primeira delas diz respeito a quem aguarda na fila de transplante por um coração novo: enquanto não encontra um doador compatível, usa o modelo artificial. A segunda é a chamada terapia de destino, em que a pessoa não pode se submeter a um transplante por razões como idade avançada, problema de saúde ou falta de doador. Nesse caso, o uso do coração artificial é permanente — em geral, ele dura de quatro a cinco anos.
Há ainda a possibilidade do xenotransplante, com a troca de órgãos ocorrendo entre espécies. Em 10 de janeiro de 2022, David Bennett, um norte-americano de 57 anos, recebeu o primeiro transplante de coração geneticamente modificado de um porco. Mas essa é outra história — e, ao contrário dos avanços e da relativa popularização das próteses e órteses, a ciência tem um longo caminho pela frente.

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