The Voice Brasil, Letieres Leite e a música negra que rompe preconceitos – UOL Confere

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô
Colunista do UOL
31/10/2021 04h00
O programa de calouros musicais da Rede Globo, The Voice Brasil, iniciou esta semana a décima edição. Bastaram duas noites para se confirmar o desempenho destacado de artistas negros em programas deste gênero.
As excelentes apresentações fizeram os jurados virarem as cadeiras e disputarem os talentos em seus times. O público também reagiu com comentários e elogios nas redes sociais.

As performances de WD, Hugo Rafael, Thais Pereira, Bruno Fernandez, Ammora Alvez, Dida Larruscain e a angolana Lysa Ngaca, para citar alguns, mostraram potências musicais espalhadas pelo país e escondidas pela falta de oportunidades.
Carioca de Campo Grande, Bruno Fernandez emocionou a todos ao contar que a pandemia o deixou sem shows, e a saída encontrada por ele foi cantar nas estações de trem. O artista tem se mantido pelo que recebe do público nos ramais Japeri, Gramacho, Santa Cruz, citados por ele no programa. Inventividade exigida a muitos negros e negras, principais vítimas da pandemia e da irresponsável gestão da crise pelo governo.
No Brasil e em outros países onde realities musicais fazem sucesso, as performances de artistas negros ganham enorme destaque, surpreendendo jurados e públicos e rompendo os limites impostos pelo preconceito.
Já na primeira edição do The Voice Brasil, em 2012, o país se encantou com as apresentações de Ellen Oléria, em interpretações singulares para sucessos da música brasileira, como Zumbi, de Jorge Ben Jor, e Maria Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

The Voice Brasil 2021: candidatos da 10ª edição - Reprodução - Reprodução

WD, Hugo Rafael, Thais Pereira e Bruno Fernandez: destaques da 10ª edição do The Voice Brasil

Imagem: Reprodução

O economista Hélio Santos, um dos pioneiros a abordar a diversidade como um valor, sempre alertou para a quantidade de talentos desperdiçados pelo país por conta do racismo e da exclusão racial.
“Onde a população negra não é barrada, ela se destaca”, Hélio Santos.
Nas artes, em especial, na música, esse destaque tem revelado ao mundo talentos negros que se confundem com os próprios gêneros musicais. Não tem como pensar em ritmos como o jazz, o reggae, o soul, o blues, a salsa e o samba brasileiro sem o protagonismo de artistas negros.
“Como nós temos um DNA no nosso corpo, que faz com que você não seja igual ao outro, com o DNA rítmico é a mesma coisa. Ele se mantém, ele vem através da diáspora negra. Os negros trazem isso para a cultura do Ocidente e transformam a América inteira. Quando você falar de músicas nacionais das Américas, você sempre vai estar recorrendo a um ritmo que é consequência da diáspora negra”, Letieres Leite, músico, compositor e arranjador.
Essa era a tese defendida pelo músico, compositor e arranjador baiano Letieres Leite, 61 anos, que faleceu subitamente na última quarta-feira (27), sendo mais uma vítima da pandemia da Covid.
Neste trecho de uma entrevista ao jornalista Luciano Mattos (site el Cabong) e em diversas outras oportunidades, seja na imprensa ou em seus shows, Letieres sempre destacou a inventividade da música africana, cujas células férteis contribuíram de forma decisiva para a música mundial. E como esse DNA rítmico continuava preservado em uma memória corporal.
Por isso, o músico sempre dizia que ‘a dança vem antes da música’.

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz - Reprodução Youtube - Reprodução Youtube

Letieres Leite maestro da Orkestra Rumpilezz

Imagem: Reprodução Youtube

O artista trabalhou com grandes nomes da música popular brasileira, atuando por 14 anos como arranjador e músico da banda de Ivete Sangalo e como diretor musical dos últimos álbuns lançados pela cantora Maria Bethânia, Mangueira – A menina dos meus olhos (2019) e Noturno (2021). Um dos últimos trabalhos de Letieres que chegou ao público foi o arranjo da música Pardo, que integra o recém-lançado Meu Coco, de Caetano Veloso.
Sem dúvida, a maior obra do artista foi mesmo a criação da Orkestra Rumpilezz, em 2006, quando uniu o rico universo percussivo afro-brasileiro à linguagem do jazz, por meio dos instrumentos de sopro e percussão.
O nome Rumpilezz é a fusão dos tambores tradicionais dos candomblés da Bahia – rum, rumpi e lé, finalizando com o z dobrado do jazz, expressão musical negra mais potente no mundo.
A reverência à musicalidade religiosa afro-brasileira está no nome da banda, na formação que une músicos de terreiros a outros de iniciação clássica e, claro, nas composições, que privilegiam a riqueza rítmica afro-baiana em diálogo com as vertentes da música negra mundial.
Nas falas de Letieres, havia uma atenção para o rigor e a complexidade da musicalidade dos ritmos negros, qualidades muitas vezes apenas admiradas nas músicas consideradas eruditas ou de origem europeia.
A genialidade criadora de Letieres alimentava seu ofício de educador. Além da geração de músicos que tiveram o privilégio de tocar com o mestre, Letieres criou o projeto Rumpilezzinho, uma laboratório musical para a formação de jovens músicos.
Por meio da sistematização do método UPB (Universo Percussivo Baiano), ele propôs o ensino em música baseado na transmissão de claves e desenhos rítmicos afro-baianos, aliada a uma reflexão sobre a formação da música gerada pela diáspora africana.

Letieres Leite: músico, maestro, pesquisador da música afro-baiana - Rumpilezz / Divulgação - Rumpilezz / Divulgação

Músico, educador e pesquisador da música afro-baiana, Letieres Leite morreu dia 27/10, em Salvador, em decorrência da Covid

Imagem: Rumpilezz / Divulgação

Os projetos criados por Letieres e os sonhos inspirados por ele devem continuar a revelar talentos e a fortalecer essa arte transformadora, que elimina segregações e gera oportunidades.

A força rítmica admirada pelo maestro Letieres e para a qual ele dedicou anos de pesquisa é a mesma que se encontra preservada no corpo e na memória ancestral de artistas de pele escura invisibilizados pelo racismo.

Desprovidos de oportunidades materiais para expressarem seus talentos, a própria arte os move ao enfrentamento de obstáculos.

Que essa arte vença o preconceito e brilhe, seja nos terreiros, nas praças, nos vagões dos trens ou nos programas de tevê.
E que Letieres encontre música no Orun!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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André Santana
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